domingo, 13 de abril de 2014

O livro

Eu queria mesmo era escrever. Poder escrever um livro, contar uma história, arrancar todas essas frases desconexas do meu peito e conectá-las em vários capítulos. Eu queria isso, mas eu não consigo. As frases não se conectam, as palavras querem ficar sozinhas e o tempo. Ah, o tempo. Sempre o tempo. O livro todo podia ser sobre ele - a falta dele. Falta tempo para me espreguiçar melhor quando acordo, tempo para lavar melhor o meu rosto, tomar mais uma xícara de café, passar mais uma camada de esmalte nas unhas, escrever um livro. Ele nunca sobra, e eu sei que é assim com todo mundo. O meu livro podia chamar "A falta dele" e iam faltar várias páginas por falta de tempo.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Ditado popular

De galinha em galinha, o bico enche o grão.

Você não está mais aqui

Eu penso em você às vezes.
Às vezes me dá até um pouco de medo, parece meio sombrio.
Você não está mais aqui para me manipular assim.
Você era tímido demais para me manipular.
Às vezes você se entregava - e eu nem percebia.
Essa foi a mágica.

Sede ao pote aquariana

Vivi, eu detesto chocolate meio amargo. Se você soubesse disso você daria risada porque eu acabei de terminar um saco de chocolate meio amargo.

1,2,3.

Ouvi a sua música e criei uma letra. A gente chegou até a pensar num contrato: eu faço a letra e você o som. Mas falhou. Falhou pra burro: eu tava lá e você aqui. Eu não podia cantar pra você de longe. Então foi criando-se a distância e a sede e então tudo acabou.

Eu e eu mesma

Eu já deixei de ter medo de ser mim, mas às vezes ainda me pego nervosa quando me vejo sozinha comigo. Ser eu às vezes me magoa, às vezes me amedronta, às vezes me acalma: sou só eu. Mas acontece que eu costumo mais ficar nervosa comigo. Chego a esquecer quem eu sou. Sabe, às vezes eu penso: ainda bem que eu tenho a mim.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Longe

Às vezes eu penso que se eu não tivesse medo
poderia governar alguns países
poderia ser rainha ou uma atriz de hollywood
se eu não tivesse medo
acho que eu seria Napoleão
e por que não?
Achar que tudo é possível, que dá
mas não dá - e eu tenho medo
mal saio do lugar
só vou daqui para lá
E se eu não tivesse medo, imagine?
Não estaria aqui, não.
Tem tanto lugar bom:
agora eu estaria longe, longe.

sábado, 22 de março de 2014

Sem nada

Queria fazer uma poesia,
mas estou ilhada.
Não consigo juntar as palavras
e aqui não há sinal
nem para uma poesia urgente
como essa.
Queria fazer uma poesia,
mas estou perdida.
Não encontro nada
- nem palavras e nem espaço.
Não há tempo para poesia
nesse meio
nesse fim de mundo
nesse espaço
sem nada.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Pra onde?

Para onde foi o meu peito 
com todos os meus sentimentos dentro? 
Talvez eu saiba, mas não posso falar, 
acho que faria a minha mãe chorar. 
O meu peito é tão brincalhão, 
poderia ter pregado uma peça.
Mas acho que não,
ele tinha um pouco de pressa.
Só sei que aqui ele não ficou,
só sei que as coisas que ele me levou,
são tudo que eu sou.

Tem o tamanho

Acho tão injusto 
cada minuto desses 
com dor no peito.
Como se a vida fosse terminar amanhã.
Mas ela não acaba nunca - e a gente sabe,
mas fica chorando como se fosse rápida, curta, única.
É nada.
A vida tem o tamanho 
de uma vida inteira.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Sobre a seca (hai kai)

Cai a chuva
em outro lugar
que não aqui.
Aqui fica a seca
que não cai
só fica.

Nesse planeta tão grande

Eu tenho o meu espaço em algum lugar de algum canto
Nem sei onde fica o lugar que eu fico 
Nesse planeta tão grande
Mas quem falou que eu me preocupo?
Algum lugar eu ocupo. 

Cazuza

Eu vou dar o meu desprezo
Pra você que me ensinou 
Que a tristeza é uma maneira
Da gente se salvar depois
Dói dentro de mim, um filho que não nasceu. E esse aqui nem vai nascer - porque é imaginação e uma coisa eu aprendi: a realidade é só o que eu posso tocar. Como essa coisa de sonho, essa coisa mesquinha que a gente faz só para satisfazer o nosso peito, que quer sempre chamar a nossa atenção.

Cruz + Espada

É tanta tristeza que eu vejo 
que eu já quase nem vejo mais.
É tanta saudade que eu sinto,
que eu só quero paz.
Mais nada, nada, nada.
O que mais eu poderia querer,
se estou entre a cruz e a espada?


Onde estamos

Um dia eu vou acordar doente
e vou achar que o mundo é que acabou
quando o que acabou foi o meu mundo,
a minha conexão com o mundo.
Eu vou sair correndo, achando que estou fugindo,
quando na fuga tudo fica: só o lugar que muda.
Mas o que é o lugar senão tudo que a gente tem na cabeça
- menos o lugar onde estamos.

Nadar

Faltam poucos dias para a China -
uma viagem até um outro continente -
mas em que continente afinal nós estamos?
Estamos juntos, aqui nesse planeta?
Estamos aqui, eu e você, em algum lugar.
Mas que lugar é esse? É distante esse lugar
- de quê?
E quando eu penso que tem muita terra ainda
- mas tem muito mais mar -
Eu tenho medo de me perder na água,
é tanta água nesse mar que tem na terra.
Muita água e eu não sei nadar.

Desloca

Tudo que provoca um pequeno deslocamento dentro da nossa cabeça, do nosso peito, dentro da gente - é para esses deslocamentos que a gente vive.

Trem para as estrelas

Essa música nasceu no mesmo ano que eu nasci: 
nascemos juntas, eu e a música. 
Mas eu não trouxe nenhum trem para as estrelas. 
Trouxe talvez o túnel, mas não sei se bom: 
sem luz no fim.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

De tão nada

Ai como me dói não ser nada,
todo dia não ser nada dói -
dói porque nada é tão pouco,
e nada é ainda menos.
Eu não sou nada, mas todo dia quero
ser mais um pouco.
E de pouco em pouco talvez eu possa ser
um pouco mais do que nada.
- mas, sabe, se um dia eu algo for,
é capaz que eu nem perceba.

Na cama

Quando você me perguntou,
eu tinha várias coisas pra dizer,
mas eu nunca sei como é que você vai ouvir.
Se eu disser o que eu sinto,
o que é que você pode dizer?
Tenho medo sim, medo sim, receio.
Tenho medo, medo, medo.
Mas e daí? Você nem repara se eu virar e dormir.
E fica tudo por isso mesmo.
E eu esqueço que tenho medo.
Medo, tenho medo sim, receio.
Medo, medo. medo.
E vamos dormir.

dizer sim

Não custa nada dizer 
um alô 
Só pra dizer se tá tudo em paz, tudo beleza
Me leva pra um restaurante
bacana, bonito
Me leva pra passear
num lugar tão delicado
que de repente eu posso gostar
e gostar, e gostar
e um dia eu posso dizer sim
e ficar.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Yusk Imai

He feels it.

Um recado da vida

Diga a ela que se não for agora não há outra hora.
Diga a ela isso e que eu não posso esperar.
Pra falar a verdade, só aqui entre nós,
- e que fique em segredo -
eu acho que já não dá mais tempo.

Saramago

Pode se morrer de pessimismo?
Pode se morrer de achar que não vai dar certo, que não vai melhorar?
Porque se puder é bem possível que Saramago tenha morrido disso.

Brilho eterno de uma mente sem lembranças

Eu acho que esse filme é sobre como não importa quantas vezes a gente esqueça, quantas vidas a gente viva, o quanto a gente apague o que viveu. Não importa quantas vezes. Vai vir um erro, um arrependimento, uma vontade de fugir - ou de apagar absolutamente tudo. Sempre vai vir, apagar não podemos, mas mesmo se pudéssemos, nada ia adiantar. Nada, meu amor, nada.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

E a dor também

Grande mesmo é essa vontade de fugir, sempre
mas fugir não leva a nada
porque os pensamentos vão junto
- e a dor também.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Quando o sol desce

Quando chega o verão, meu pai parece que derrete no chão.
Papai não aguenta o calor, ele fica estranho, sabe? É assustador.
Quando sai o sol papai parece um lobisomem
mas no caso dele é às avessas: era lobo e vira homem.
Papai, me diz o que acontece
quando faz calor e o sol desce?

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Meu amor,

Hoje eu resolvi finalmente escrever pra você, diretamente pra você, assumidamente pra você. Já escrevi outras vezes, mas dessa vez é diferente: não tem nenhuma ocasião especial. É que eu fui extremamente grossa com você e não consigo parar de pensar nisso. Eu demorei pra perceber o quanto eu tinha sido rude e nem cheguei a pedir desculpas, só fiquei expondo o meu lado. Assim que eu me dei conta eu pedi desculpas, mas você já tinha me desculpado - e tudo ficou por aquilo mesmo. Mas não! Giu, acho que você já leu a quantidade de textos que escrevi para outras pessoas. Você viu que conheci muita gente, tive muitos amores e desamores. Mas já faz quase quatro anos que é só você que faz parte da minha vida, da minha história, do meu coração. Desde quando a gente se conheceu você tem sido paciente com os meus deslizes, as minhas falhas, as minhas coisas meio loucas. Você sempre me dá a mão, sempre tenta me entender, sempre fica ao meu lado. Eu fico até espantada com a sua capacidade de esperar a tormenta passar, quando há uma tormenta, a capacidade de sempre me agradar, mesmo quando nada parece me agradar mais. Já pensei em desistir de nós dois, já me irritei, já quis ir embora. Mas eu volto, eu volto sempre pra você. Você, sempre tão paciente, parece já saber da minha volta e fica ali sorrindo, me vendo rodar como uma barata tonta. Olha, eu nunca deveria ter sido grossa daquele jeito com você, porque você é a pessoa mais doce, mais carinhosa e mais companheira que eu conheci. Você não merece nenhuma grosseria minha, jamais. Eu sou tão grata por tudo que você me ensinou e continua me ensinando, eu só tenho o que te agradecer, sempre. Eu nunca amei ninguém como eu amo você e eu sei que eu parei por aqui. É com você que eu quero seguir em frente: atrás dos meus sonhos, da minha felicidade, atrás do resto de vida que eu tenho pela frente. Desculpa, tá?

Dia-adia

O cotidiano me parece uma interminável sucessão de pequenos assuntos que contrariam o grande objetivo.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Só aquela

Eu nunca guardei o nome dele
e acho que ele nunca guardou o meu rosto
mas ele deve lembrar da minha voz
eu gritava, eu ria, eu falava bem alto
misturando as palavras e as linguas
a dele e a minha
Ele respondia falando baixinho
que tava todo mundo olhando
Quem se importa, eu gritava
QUEM SE IMPORTA
A gente dançou a noite toda
ele suava e os meus pés urravam de dor
mas a gente não parou de pular
pensando que dançava.
Eu não sabia, mas ele não tinha mais ninguém
eu nem imaginava, mas era só aquela noite
e mais nunca mais.

Velhaca

Em um minuto eu consigo dar um beijo, roer a unha, chorar ou dar cambalhota. Em dois minutos eu consigo um pouco mais: comer um lanche, pular a escada, escrever um texto, cantar uma música. Eu uso o meu tempo com coisas inúteis pra ver se ele passa mais devagar - o útil é muito rápido e faz a gente envelhecer. Eu não quero ficar velha. Quero ficar torta, cegueta, desbocada, mas velha não. Meus netinhos perguntarão quantos anos eu tenho: vinte e seis, eu direi. E talvez até pareça, porque o tempo não passou. Você viu passar? Eu também não, ninguém viu. Quem disse que ele passou?
Andei distante, andei triste e andei bastante
só que eu voltei pra cá, o lugar que dizem ser meu.
Qual é esse lugar que eu ainda não vi:
será aqui, será um lugar, será você?

Talvez passe

Quando eu pus o dedo na ferida,
o dedo doeu mais do que a ferida
mas eu não chorei, fui corajosa
porque é isso que é ser corajosa:
não chorar.]
Eu tinha um segredo pra contar pra alguém,
só que não tinha pra quem contar
e o segredo se desfez
- na água ou no vento, tanto faz.
Guardei pra mim o que eu tinha pra mostrar,
porque talvez não fosse interessante
(e tem tanta coisa interessante nesse mundo,
pra que desperdiçar?)
O que passa mais rápido: o amor, o tempo ou a idade?
O amor não passa não, alguns dirão.
Não sei, talvez passe,
talvez não.



Astronauta

Me sinto um astronauta no meu corpo. Não conheço direito nem o meu nariz, principalmente o meu nariz. As minhas mãos eu até conheço porque rôo todas as minhas unhas. Os olhos, conheço só de vista. Minhas pernas às vezes surgem enquanto corro, mas só assim que eu as vejo. É uma pena que eu me conheça tão pouco depois de tanto tempo. Mal sei do que eu gosto, só sei do que eu corro. E eu corro de mim mesma. 

Ralo

Quando eu chego em casa e quero tudo
eu me esqueço o que é que eu queria,
e não quero mais nada.
É assim que funciona:
não amar mais, cinco minutos depois de ter amado.
Pra onde foi todo aquele amor?
Pra onde foi o que eu queria?
Devem estar lá na piscina,
quando eu mergulhei devo ter deixado lá embaixo.
Se tiver ralo, o ralo levou o meu amor.

Final

Um ponto final
final
final
fim.

Podia ser vírgula,
mas acabou
(e ponto).

Dois pontos:
foi um final.


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O seu nome

Qual seria o seu nome,
se não fosse o que eu chamo?
Mesmo que às vezes eu confunda,
esse seu nome, qual seria,
se eu deixasse de chamar?

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Quadrilha

Não sei até onde a gente pode chegar com esse negócio de amor, mas eu acho que parte disso deve ter algum fundamento. Por que a gente fica com vontade de algumas pessoas e rejeita outras? É um jeito que Deus viu de segurar as pessoas? Pura taxa de natalidade? E daí, às vezes, uma pessoa não se interessa por outra que deveria ser seu par porque ela está distraída com outra pessoa. É uma loucura, Deus.

O que foi amor?

Por quê, de repente, você me perguntou:
-O que foi amor?
Quando você sabia que nada amor,
não havia nada que pudesse ser?

Meu amor

Você exige esforço nenhum.
você exige paz, você exige silêncio
você chegou em silêncio, como se não fosse nada
mas exige silêncio, exige paz, exige estar vivo.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O tempo todo

Quando você de repente vai embora eu me esqueço como é que se fica sozinho.

Só não gosto

Eu não gosto de me ver no espelho
nunca, nunca mesmo.
Não por causa do meu rosto,
eu até gosto do meu rosto,
não é isso.
Eu não gosto de me ver no espelho,
com essa cara de sozinha, de quietinha,
de poucos sorrisos desses
que vem do peito.

Nem mais

Não gosto quando você espera de mim demais,
demais de mim.
Eu não posso te dar muito, e muito menos pouco.
Me deixe assim, que esse é o melhor de mim.
Nem mais,
Nem menos,
Nem pouco e muito menos
Nem muito.

Dancinha

Preciso sonhar coisas de gigante, de acordo com o que sou
mas meu bem eu lhe digo
Seu tamanho nada tem a ver com o seu passado
e também eu lhe falo
os sonhos não são assim tão fáceis e meu bem,
acorde.

Dias

Tem dias que tudo parece rascunho porque tudo parece tão fraco, que vai terminando, terminando e aca-bou.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Sonho

A sua mãe tocava pra você essa música no piano e eu ouço essa música como se eu estivesse ouvindo a vovó. Eu vejo a vovó sentadinha no piano, pequenininha como eu a imagino. Ela me vê descendo a escada, sorri e continua tocando. Não sei qual é o número desse noturno, mas é um dos mais lindos do Chopin. Tenho vontade de chorar olhando a vovó tocar. Eu me sento do lado dela e espero ela terminar a música pra abraçá-la, temos tanta coisa pra falar uma com a outra. Tem tanta coisa que eu quero saber do papai, coisas que eu quero que ela me conte como foi a versão dela. Tem tanta coisa! Será que ela continua sarcástica? Será que ela vai me fazer rir? Imagino que ela vai ficar falando do Pradão entre uma piada e outra. Quero tanto saber o que ela acha de mim! Somos parecidas, vovó? O papai vai dar gargalhadas quando eu contar pra ele que encontrei a vovó tocando piano! Mas aí a música acaba. A vovó levanta, beija a minha testa e vai embora, toda feliz.

Mesmo lugar

Você sabe que todas as coisas que a gente faz na vida, todas e absolutamente todas, serão esquecidas por todas as pessoas que a gente conhece na vida, porque todas elas, como nós, estão preocupadas com as coisas que elas fazem na vida. E no final da vida, vamos todos pro mesmo lugar.

gymnopedie 3

O problema de eu me sentir sozinha
não é a tristeza que gera
não é eu estar desprotegida
não é a falta de alguém
é talvez
a possibilidade
de eu, de repente,
estar mesmo sozinha.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Manchete

A notícia sobre futebol está ao lado da notícia sobre os duzentos mil desabrigados no Rio por causa da chuva. A única diferença é que a notícia de futebol tem uma foto e está em destaque.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Triste assim

A minha tristeza é suave, quase doce. Eu sorrio tão levemente, parece verdade. Eu entro e saio sem ninguém saber que sou triste. Ninguém. Eu passo entre as pernas, entre as mesas e entre os pensamentos de alguém tão rápido que é como se eu nunca tivesse passado. Eu não tenho passado muito. Também não tenho muito passado. O presente quando demais quase esconde o passado. Mas também, quem mandou estar aqui. Quem mandou passar por aqui a essa hora. Não adianta reclamar, chorar para os santos, não há nada que te faça outra. Essa aqui é você, triste assim.
]
Eu não sei fazer de outro jeito se não o errado. 
Eu não sei fazer de outro jeito se não qualquer jeito.
Eu não sei fazer de jeito nenhum.
[

Preciso escrever

Preciso escrever um pouco
se não o que será de mim quando me descobrirem
e todos ficarem sabendo que eu não sei fazer mais nada
e eu for desmascarada?
Eu preciso escrever
para que saia, quem sabe, uma poesia
e então eu a vendo por milhões de dólares
e fico rica
e nunca mais preciso fingir mais nada.

Roteiro


  1. um labirinto
  2. não, um labirinto não, um mar
  3. cheio de ondas silenciosas
  4. e vazio
  5. nenhum barco a vista
  6. ninguém
  7. de repente um peixe surge na superfície
  8. e volta pra dentro do mar.

Se eu chego

A minha tristeza é ver que eu corro, corro, corro, e a linha de chegada está em qualquer outro lugar.
A minha tristeza é ver que eu não saí daqui. E os anos passaram, eu consigo ver nas pequenas manchas,  nas feridas, nas mãos. Os anos passaram que eu sei. E eu sei que está todo mundo querendo esconder isso de mim. A mulher que me atende no posto de conveniência, o cara que abastece o meu carro, a bruxa que disse que eu não sabia escrever. Estão todos fingindo que eu não estou atrasada. Estão todos me escondendo uns anos. Só quero saber se eu chego, se eu consigo chegar ao lugar que está separado para mim.

Roteiro

Um roteiro, ele me pediu um roteiro.
Eu não sei, mas sinto que o que eu quero dizer é justamente o que vai
fora do roteiro
junto com o Leminsky ou não sei, com o Drummond
aquele Drummond que eu não entendia quando era pequena
mas hoje eu entendo,
infelizmente eu entendo.

que gosto tem

Qual será o gosto de realizar um sonho? Qual será o rosto de quem realizou um sonho? Gente que realiza um sonho fica diferente, não sei diferente como. É, pode ser bobagem minha.

domingo, 24 de novembro de 2013

sonho

Meu pai veio me dizer que o meu sonho era um pouco caro e um pouco difícil, não tira o foco do trabalho, filha. Como se eu não soubesse já. Como se eu não tivesse arrastado esse sonho na garganta por vinte e seis anos e cinco meses. Mas tudo bem, é só mais uma montanha que eu vou precisar escalar, depois do meu trabalho me obrigar a adiar e adiar mais o meu sonho. Porque é assim mesmo. Todo sonho que se preza tem que ser difícil, impossível e quase sempre a gente desiste. Eu penso todo dia em desistir, porque eu não sou forte pra aguentar um sonho ridículo desse nas costas, mas eu sempre quero tentar mais um pouquinho, mais umas semanas, mais uns meses. Pode ser até que eu acabe pensando em não desistir, pelo menos um dia. Esse dia vai ser bom. No dia seguinte a vida real volta a me atormentar, e o sonho volta a ser só sonho.

O barbudo do trabalho

Tenho histórias secretas pra contar pra ninguém.
As histórias que eu imagino olhando para as pessoas.
Olho pra esse cara do trabalho, imagino ele tocando algum instrumento genial na janela de casa. Aquela cobertura que quase dá no céu, um céu meio solitário, mas cheio de estrelas. E imagino ele cozinhando ao som de um jazz que eu não conheço. Imagino ele não fazendo a barba e deixando os óculos em cima da pia. Depois ele vê o jornal na televisão, o jornal da meia-noite. Ele analisa tudo com os olhos semi-fechados e dorme. Ele tem tanta coisa pra contar pra alguém.

onde

Já são sete horas da noite e eu acabei de perder o dia não sei onde.

Outros séculos

Estava estudando romantismo alemão, espanhol, português. Eles se matam, elas morrem de amor, elas esperam, eles morrem na guerra, elas ficam grávidas de outros, eles se entregam ao inimigo, elas também. Dor, dor, dor. Tudo tão trágico. Exatamente como na vida real.

your heart

Sometimes I feel like your heart must be upside down.
Or is it mine?

sábado, 23 de novembro de 2013

Coisas invisíveis

Acho que talvez esteja na hora de ficar um pouco longe disso tudo, tá na hora de ir para casa, para o acampamento, para a chácara da vovó. Preciso ver a terra, me ver de longe, preciso ver melhor. Quando se fica muito tempo longe de casa, do que se acredita, o caminho de volta fica quase invisível.

Teresa

Quem põe os pingos nos is,
a vírgula para dar uma pausa,
o ponto para finalizar a questão.
Quem traz o sol de manhã
- mas isso é um clichê, ela diria.
Quando um avião cai, 
- e todos os dias caem aviões -
ela respira e faz o mundo saber, tranquilamente.
Ela foge do que chama de mundo cão,
porque na hora do almoço ninguém merece sofrer.
Saias longas, botas, pulseiras
e um jeito doce, doce.
Teresa, a sua existência torna a vida na terra mais suave, 
todos os dias.
Porque você e os seus cachos
parecem um daqueles milagres disfarçados de gente.

sábado, 12 de outubro de 2013

Peso

Há entre nós um peso
- eu achava que era só o peso do ar,
mas o ar não é tão pesado, e esse peso parece um piano
(um piano em silêncio, como o que eu tenho em casa).
Depois achei que era o peso de uma dor
uma dor que eu não conheço, que dói como uma pancada.
Mas não é: nem pancada, nem dor, nem piano e nem ar. 
Algo me diz que esse peso 
É o peso da morte. 

domingo, 6 de outubro de 2013

Peito morto

Eu queria estar morto pra ver como seria. Queria andar morto pelos cantos, pela minha casa, lá no meu trabalho. Um morto fedorento, com cheiro de morte. Um morto assustador. Eu queria saber como é ser morto, como é esse outro lado, sem vida, sem essa dor no peito, maldita dor no peito, parece que meu peito morreu.

[entrelinhas]

[não] eu [não]
[não] te [não]
[não] amo [não]

Eu em silêncio

Eu não entendo como você consegue sobreviver em tanto silêncio.
Você diz que não tem nada a dizer, mas também não quer ouvir nada.
Vou parando de dizer aos poucos, parando, parando, par [silêncio]

domingo, 29 de setembro de 2013

Não foi naquela hora

Ela se apoiou na parede e abriu o zíper de uma das botas calmamente enquanto ouvia o piano. Ele tocava sem nenhum compromisso, nenhuma música em especial. Ela ia pensando nos últimos dias e tinha vontade de dizer alguma coisa, não estava muito segura nem muito convencida de nada. Assim que tirou a outra bota foi sentar no sofá, bem ao lado do piano. Pensava no que queria dizer, no que precisava saber, no que tinha medo. Pensava nele, nos dois, naquele frio todo que estava fazendo - aqui e lá. Ele terminou de tocar, virou-se para ela e falou qualquer coisa sobre a música. É agora, ela pensou mas não disse nada. Não foi naquela hora e nem depois. Ele se levantou e disse: preciso ir. Deu-lhe um beijo e foi embora.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Deve ser alguma coisa

Você começou como um sussurro distante, de nem sei onde. Foi virando um galope e de repente se perdeu no horizonte tão imenso que é. É assim que é, assim assim assim. Porque quando eu penso em ir embora de tristeza eu tenho que me lembrar que a tristeza é minha mesmo (não veio de você e não vai embora se você se for) e às vezes você não me entende porque a gente tem muitas coisas diferentes. O que será que você vê quando me vê? Além disso aqui tudo que vai acabar como todos os velhinhos acabam: em sobras de pele. A pele até sobra no final da vida, tão inútil que é. A gente só fica com o que um dia foi amor. Esse sentimento antigo pra burro. Esse sentimento que deve ser alguma coisa porque se não fosse, seria pele.

As crianças

E então as duas crianças entram na sala de música. Tinha um ou outro instrumento que ela não conhecia e um monte de quadro. Tem um desses na minha casa, ela pensa. Uns cavalinhos. E ele pega a guitarra (ou violão?) e toca. Ele mesmo criou a música em inglês, porque no português ia ficar claro demais e em inglês soa mais bonito. E ela guarda a música naquela portinha secreta do cérebro, aquela que nem ela mesma consegue abrir.

Essa música

Essa música é o meu grito, o meu choro, o meu desespero. E você ouve essa flauta agora porque eu preciso desabafar, mas eu só sei mesmo é fazer música e é ela que me faz bem enquanto eu me recupero dessa dor. Trim trim tchururu essa música não é pra você porque você já foi embora então de nada serviria porque voltar eu sei que você não vai. Então a música pode ser pra mim mesmo ou então pro meu pai (e pra mamãe também, por que não?). Só pra você que não é porque em lugar nenhum já se viu uma gaita tão linda pra uma pessoa que deixa a outra tão triste assim.

a sua metade

Queria te dividir no meio e ficar com uma das partes, porque a outra vai sentir o que eu sinto todo o tempo, o que eu sinto sem a minha metade porque ela está aí.

domingo, 22 de setembro de 2013

Como se

Nós não somos desse mundo
e guardamos um segredo
- sobre o outro lado.
Todos os dias a gente acorda
e precisa disfarçar esse segredo,
como se ele não houvesse,
como se, quê segredo?
E de repente ele transborda um pouco
- e vaza.
Mas ninguém percebe,
e a gente continua.
Dia após dia a gente acorda
com um dia a menos que passou ontem,
com um dia a mais para disfarçar.
E assim a gente sobrevive
(com um segredo).
(DB)

Carta aberta

Quando você me ignora às vezes (cada vez menos vezes) eu não sei como reagir. Hoje eu acho que você escolheu me ignorar porque você perdeu a discussão e ficou com raiva. Eu te esperei enquanto lia um livro tão bonito. Mas eu te esperei demais e o livro ficou menos bonito. Te esperar nunca me fez bem. Eu ando um pouco insegura, sabia? Ando achando que você cansou de ouvir o que eu tenho a dizer. As suas reações parecem dizer isso. Será que eu fiquei repetitiva? Será que eu não tenho mais graça pra você? Eu sinto que aprendi tanta coisa interessante esses dias, sinto que estou mudando tanto ultimamente, quero contar tanta coisa pra alguém. Acho que você não quer muito saber. Eu quis escrever pra você, mas não mandei uma carta direto pra você porque eu acho que você não iria se interessar, por isso escrevo aqui. Eu sei que você vai ler e vai ter uma pontinha de dúvida se é de você que eu falo. É sim, é de você. De quem mais poderia ser? Queria tanto te contar mais daquele livro que mudou a minha forma de ver o mundo desde quando eu estava no colegial, mas eu acho que você iria querer discordar só porque é o que você gosta de fazer. E tudo bem, eu deixo você ganhar, eu não sou competitiva. Aliás eu tenho uma síndrome que me faz achar que eu já cheguei ao mundo perdendo.
E é só isso.
Boa noite, você que anda um pouco distante.

domingo, 8 de setembro de 2013

Apart

Enquanto a gente esteve separado teve um dia que o seu gosto veio na minha boca como uma ressaca de dia seguinte. Eu quis beijar a minha própria boca de tanta saudade que eu tava de você.

Passarinho

Um dia você me deu um passarinho. Um passarinho diferente, desses que vem na mão. Topetinho amarelo, coisa mais linda. Eu quase tive um troço. Imagina uma pessoa ir até um criador de passarinhos na zona norte da cidade escolher o passarinho mais bonzinho. Depois trazer numa gaiola para dar de aniversário para a namorada. Não posso com uma coisa dessas. Mas não foi fácil, não. Ele era super bravo, queria me matar o tempo todo. Bicava forte, achava que eu queria comê-lo. Sofri tanto. Todos os dias eu tentava pegá-lo, tentava cantar pra ele. E sofria com a rejeição que vinha em troca. Dias, semanas, meses passavam e nada dele gostar de mim. Até que ele começou a vir no meu dedo, começou a cantar um pouquinho, a coisa foi ficando legal. Ele parou de me bicar, parou de me detestar. Finalmente percebeu que eu não iria comê-lo. Começou a me tratar com carinho, cantar tudo que eu ensinava. Certa vez eu fui dormir e ele pousou no meu cabelo, o tempo todo ele ficou ali. Eu acordei e chorei um pouquinho: o meu passarinho me mostrou que eu posso ensinar alguém a amar. Com paciência, carinho, amor. Eu aprendi isso com um passarinho, o melhor presente que eu já ganhei na vida.

Você e Ele

Mamãe, não se preocupe. Você se preocupa demais. Você é a pessoa nessa Terra que mais tem Deus no peito. É como se Deus tivesse te escolhido. E no entanto fica com medo de quase tudo. Como pode? Não pode, não deve. Mamãe, mais do que ninguém você deveria saber que se qualquer coisa acontecer, você fala com Deus rapidinho e juntos vocês dão um jeitinho de ficar tudo bem. Foi assim a vida toda, por que haveria de mudar?

Antes de tudo

Antes de tudo, era tudo tão leve
que as coisas flutuavam pelos dias
não como dias, mas como nuvens.

O t do enquanto

Eu escrevo porque eu gosto demais de dormir, mas eu perco o sono de tanto que eu preciso escrever. Meus dedos seguram a caneta com força e meu cérebro grita "acorda" enquanto eu risco o t do enquanto.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Menos sete

São zero horas do dia seguinte,
não podia ser menos sete?

O nosso

O seu amor é delicado
parece nariz de criança
o seu amor parece um desenho feito de giz
no chão da sala
O seu amor me faz dar risada
quando eu acordo
O seu amor, tanto amor
tanto amor que me transborda
Você não sabe, mas eu sou tão feliz
por causa do nosso amor.]


Para o meu amor, Giu.

Já fui

Já fui escritora, poeta, ilusionista, gozadora.
Hoje eu aperto botões com louvor
- sou uma das melhores da turma.
E também sou o revés de um sonho,
um sonho amputado.
Um sonho pior que dor de nunca mais.
Eu já tive vontade de tentar
mas o medo venceu
e o botão me apertou.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Ale(r)g(r)ia

Sendo assim, a alegria uma espécie de alergia
- que vem, dá coceira e vai embora -
É melhor comer de tudo, passar todos os cremes,
cheirar todos os cheiros, pular em todas as piscinas
melhor é fazer de tudo
até que essa alergia volte a dar coceira.

Gosto

Toda pele receberá lábios úmidos 
e todos os lábios sentirão com a língua o gosto da pele
e cada pele terá um gosto
porque Deus não fez um gosto igual ao outro



terça-feira, 9 de julho de 2013

O Mito de Sísifo


Todos os dias ele lembra ela sobre o mito de Sísifo. Ela acorda desanimada, toma o café da manhã e vai triste levar a pedra ao topo, sem entender o paralelo do mito com a vida. Quantas subidas me restam? E quanto mais ela se questiona, mais subidas restarão.

O menino morto

Voltei a pensar no menino morto. Ele morava tão longe que eu não consigo imaginar uma versão mais atualizada dele, do jeito que ele estava quando morreu. Penso só naquele menino que foi embora aos 14 anos. E foi ele que morreu pra mim. Loirinho, rosto de menino doce, narigudo. Ele não era tão doce assim, era até bastante atrevido, mas por ser tímido ficava um pouquinho doce. Eu passava o dia atrás dele: quando não estava na frente da casa dele, ficava na janela atenta ao som do carro dele - quando passasse o carro, era hora de ir pra frente da casa dele. Quando finalmente depois de muitos meses (talvez até um ou dois anos) nos beijamos, fiquei tão nervosa que abri os olhos para ver se era ele mesmo. Fiquei atenta ao cheiro, a pele, ao gosto. Coração saltando pela boca. O perfume - depois fui descobrir - era um de frasco azul escuro com o símbolo do cavalinho, o gosto dele era daquele chiclete popular de menta, e a pele... própria de um garoto de 14 anos: pêssego com espinhas. Esses dias dei de cara com aquele frasco azul no banheiro do meu pai. Acho que foi uma das coisas mais tristes em muito tempo: o cheiro dele não me trouxe nada à memória. Eu o vi em um sonho um pouco depois que soube da morte. Quis chorar, quis abraçá-lo, quis lidar com as minhas próprias mortes no ombro dele, mas não pude: ele era só um menino, aquilo era só um sonho e o cheiro dele eu nunca mais soube.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Tum-tum

Ainda bem que você
 - com tantos conselhos, com tantas palavras alheias - 
resolveu ouvir o meu peito. 

De repente, do pranto fez-se o riso





quinta-feira, 27 de junho de 2013

A caixa

O porta-retratos, o livro, os colares, a pulseira, o anel. As músicas. Uma saia de couve-flor. O endereço de um site. Cartas. Uma passagem de avião. Mais cartas, mais músicas, mais fotos. Coisas, coisas, tantas coisas. Foi tudo para a caixa. Aquele cheiro de tanta coisa dentro da caixa, não dava para ela ficar na casa sem tudo aquilo. Ela levou a caixa pra fora, era grande o suficiente para caber ela lá dentro. Entrou. Daqui de dentro eu não saio.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Qual é o objetivo afinal?

A gente brincava de Barbie todos os dias - duas horas para montar a casa e outras três brincando, todo dia. Até que um dia, quando tínhamos quinze anos as duas, ela me ligou: "onde vamos montar a casa hoje?" "Não sei, eu estive pensando, sabe? Acho que não quero mais brincar." "Como assim? Por que não?" "Porque hoje eu me dei conta de uma coisa... Qual é o objetivo dessa brincadeira afinal? Não tem um objetivo..." Ela ficou uns minutos muda do outro lado da linha e suspirou: "É... acho que você tem razão" e desligou o telefone. Alguns dias depois a vontade de brincar voltou e eu liguei pra ela, mas ela não quis mais. Ela nunca mais quis mais. Eu coloquei aquela dúvida na cabeça dela e foi por causa daquela dúvida que a gente nunca mais brincou. Bobagem nossa, mas a gente jamais poderia imaginar que nada nessa vida tem um objetivo muito claro.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

A sua mão

Nadei, corri, dancei, chorei, cai tanto pra chegar aqui e tudo que você tem pra me dar é a sua mão? Eu aceito.

Seja qual for

Adeus, obrigada, desculpe.
Estou indo, indo, indo...
Não vou parar de ir nunca.
Eu tenho alergia a ficar aqui
(seja lá qual for o aqui).
Adeus, me dá o último beijo
- porque o último beijo tem
o mesmo gosto do primeiro.

Como é possível que a espera seja tão longa, o caminho seja tão doloroso e as flores no caminho murchem tão rapidamente?

Casa

Enquanto acertava o relógio velho da sala,
e arrumava as cadeiras e organizava os livros na estante
e tirava o pó da escrivaninha e varria o chão,
ela se deu conta - com muita dor no peito -
de que aquela não era mais a sua casa.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Reza

Todos os dias eu choro um pouquinho antes de dormir, e essa é a minha reza ao avesso.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Escova de dentes

A sua escova de dentes na minha cabeceira me dói mais do que o silêncio do meu celular. A escova grita, esperneia, implora para que você venha buscá-la. Por causa dela eu vejo os seus dentes a espera da escova, a sua boca, o seu abraço, o nosso amor. Não adianta guardá-la, os gritos atravessam a gaveta, atravessam os meus sonhos, o meu dia. De todas as coisas que eu tinha, ela é absolutamente tudo que me restou.

sábado, 15 de junho de 2013

Um beijo na boca


Essa tela tem sido muito divulgada na internet. Quem gosta de arte com certeza já viu. Acho que a divulgação toda é porque a beleza aqui é muito clara: os dois rostos estão tão ligados que se anulam. Muito amor, muita ligação, são um só. Simples como deve ser. Jarek Puczel é um artista polonês e as obras dele são todas assim mesmo: minimalistas, românticas e sutis. Pelo menos é a minha impressão. As narrativas são simples, o acesso é fácil. Doce, doce... Tenho saudade dessas obras, acho que desde que nasci. 

Eu não sei falar alemão

Ele nem me conhecia e já quis me analisar. Acho que as pessoas tem uma certa mania de fazer isso: já ir me analisando. Acho um pouco irritante. Ele disse, em alemão, que estava escrito na minha testa que eu era uma pessoa que não gostava de se arriscar. Que eu era defensiva. E ainda teve a audácia de traduzir tudo. Eu quis matá-lo a facadas, mas me contive. O que é que você tem a ver com meus medos? E se eu não quiser superá-los? Ich mag es nicht meine Ängste aussetzen. 

Aquela viagem

Uma vez a gente viajou de carro para uma cidade vizinha. Minha mãe achou a coisa mais romântica do mundo. A gente perdeu o voo e eu quase desisti da viagem, mas ele sugeriu o carrinho vermelho. Eu estava indecisa com relação a quase tudo. Quase tudo estava me reprimindo. Mas eu fui, a viagem era longa e podia ser bom pra nós dois. Eu adoro ficar no carro olhando a janela, a paisagem indo embora. Eu adoro que nessas viagens o silêncio é permitido. Eu fui ficando mais calma, a viagem foi mais demorada do que o previsto. A gente ria, nos sentíamos aventureiros naquele carrinho. A polícia nos parou, foi o máximo. Quando chegamos lá, eu já nem lembrava da minha indecisão. Ele foi engraçado, se esforçou pra caramba sem nem precisar se esforçar. Eu lembro da risada maliciosa dele na volta da festa. E choveu no dia seguinte, ficamos presos um ao outro. A volta foi de avião. Rápida, rápida demais. Senti falta do carrinho vermelho. Sem que ele visse eu chorei um pouquinho. Aquela viagem pareceu um sonho bom. 

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Hamlet


Shakespeare disse, naquele livro Hamlet, que diante de tanta dor que os homens sentem eles só não se matam porque têm medo do que os espera do outro lado da vida. Ninguém foi até a morte e voltou vivo pra contar o que viu. E é justamente essa dúvida que nos mantém vivos. É uma covardia, mas é por causa dela que ainda estamos aqui. Tem dias que o medo quase some, a coragem parece gritar.  

domingo, 9 de junho de 2013

Balada

Uma mulher triste com uma cerveja na mão. Ela ri, conversa com quem conversa com ela, se bobear até dança um pouquinho, mas é infinitamente triste. Quem ali naquele mundo escuro cheio de mini saias vai perceber tanta tristeza?

terça-feira, 4 de junho de 2013

cativeiro

Um dia meus netinhos virão me perguntar,
não vou conseguir mentir, também não vou negar:
eu estava num cativeiro e você veio me buscar.

choro de pai

eu só me lembro de tê-lo visto chorar numa sexta-feira treze quando choveu muito e ele cortou o supercílio batendo em algum lugar e sangrou e ele chorou chorou chorou quase até o sangue virar casquinha essa foi a única vez que eu o vi chorar.

um igual

O que dizer dessa dor, tão pouco sentida pelo resto da humanidade? Que sou privilegiada? Se o privilégio da poesia é sentir essa dor, que acabe toda a poesia porque não quero mais doer. Meu peito me enche, meu peito que bate, talvez mais do que os outros. Esse peito eu lhe dou de presente, fique à vontade para jogá-lo no mar. Eu não quero mais. Só quero perder essa minha visão de ver tudo por de  dentro. Aqui fora é vazio demais, como faço para achar um igual? Preciso dividir a vida, porque a morte não me vem e eu ainda não achei.

Paulo Leminski

Transar bem todas as ondas
a Papai do céu pertence,
 fazer as luas redondas
ou me nascer paranaense
A nós, gente, foi só dada
essa maldita capacidade,
transformar amor em nada. 

Suicídio

vinte segundos faltam
para eu fazer falta
por aqui


Villa Oscarlina

Não foram só os quadros encantadores. Eu tive vontade de ficar ali alguns dias, olhando os detalhes como aquela faca que foi reposicionada e deixou um rastro na mesa, ou aquele pintor que me lembrou o Turner. Mas não foram só os quadros. Eu descobri uma versão de where is my mind que me fez suspirar. Eu provei o melhor bolo de chocolate do mundo e a birdy também foi uma graça. O Olavo Bilac conheço pouco, mas eu sei da sua importância. Ele estava na estante com todas as outras preciosidades. A música de dez anos atrás, eu queria ouvir mais uma vez - só mais uma - pra poder gravar escondido. E depois ouvir mais mil - ao longo do resto da vida. Eu tinha saído de um lugar hostil "não confunda experimentar a vida com se colocar em perigo" e cheguei no universo paralelo que eu tanto falo. Foi isso tudo junto. Guardei um pouco da Villa Oscarlina no peito para quando eu não quiser mais fazer parte desse mundo eu lembrar dela.

domingo, 2 de junho de 2013

O grito

Eu vou saindo sem dizer nada e o seu silêncio gentilmente abre a porta para mim. E quando eu já estou lá fora esperando um trem passar eu ouço qualquer coisa que parece ser um grito seu. Mas eu já estou longe, longe demais quando percebo que é mesmo seu o grito. Eu nem sabia que você podia gritar.

where is my mind

Your head will collapse if there's nothing in it

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Flerte

Um segundo após o outro
eu sofro com a vida.
Num segundo e não no outro
eu seguro o choro,
prendo a respiração.
A vida muda, a dor passa,
a respiração ainda presa.
Depois, com a pressa,
tudo volta num segundo,
e no outro eu sinto muito.
A vida, sendo tão pouca,
sobra em mim e nada me resta.
Eu transbordo a vida,
às vezes pelos olhos.
Eu espio a morte,
ela me espia de volta.
O flerte é grande,
mas eu não morro.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

G. Benção

Na verdade me dói mais um tanto, mesmo que com certa dose de alívio, a sua presença na minha vida quase adaptada. Quando o meu olhar já estava quase destreinado, você pediu gentilmente que eu acordasse. Ao som de um homem que conseguiu transcender a música, na verdade eu não sei bem se acordei ou se renasci.

terça-feira, 21 de maio de 2013

I think it's sad the way I see the world.

É?

Acabou a tinta, a bateria, a dor.
Acabou a música, a luz, a água.
O sabor, o tempero, o lugar.
Acabou o dia e o minuto que passou.
Ainda tem um pouco de mar.
Um pouco de vento, um pouco de algo.
Algo que eu não sei nem o que é,
eu não enxergo bem à noite.
Ainda tem a noite.
Ainda tem o dia seguinte.
Ainda tem muita coisa - mesmo que tudo tenha acabado.
Tudo não é tanto assim, é?

domingo, 19 de maio de 2013

Estrada

Eu descobri tanta música nova pra gente ouvir nas nossas viagens de carro. E se você ficar com sono, eu não vou me importar em escutá-las sozinha enquanto dirijo. Eu fico pensando na vida enquanto vejo a estrada se curvar e fico pensando na gente e fico pensando se eu deveria ser assim tão triste quando eu fico triste. Mas se de repente eu me enfiar em um acidente e nós dois morrermos eu nunca vou descobrir se a minha tristeza é mesmo comum. Por isso eu preciso tentar sem você. Eu preciso ver do que é feita a minha tristeza. Me perdoe, eu não quero morrer sem saber. Me perdoe por ser triste, por ser assim triste, por ser assim.

e-mail antigo

O Munch (se fala munk) era um artista norueguês (1863 - 1944) , que teve uma vida MUITO turbulenta. A mãe dele morreu aos 5 anos, uma das irmãs morreu aos 14, o pai mergulhou numa onda de religiosismo meio fanático-doidão e ele (o Munch) era um cara sozinho.

Foi ele que fez o famosíssimo O Grito. 

Esse quadro aqui me chamou a atenção... Chama Separação. 

Tudo que ele pintava mostrava desespero, solidão, tristeza... É triste de ver. 

Nesse quadro a mulher, meio fantasmagórica, meio sonâmbula, vai embora e o homem, desolado, segura o coração na mão. É tudo meio sombrio... É como ele enxergou uma das separações da vida dele. A mulher parte e logo vira um fantasma, e ele fica ali, sem saber o que fazer com o coração sangrando... 

Vê o que vc acha.

Vestido verde

Fazia muito frio quando eu ganhei aquele vestido dele. Foi um esforço vesti-lo escondido para fazer surpresa quando ele voltasse da cozinha. Fiquei até com um pouco de vergonha quando ele voltou e eu estava toda arrepiada dançando com o vestido. Mas ele riu, sei que gostou.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Aspen

Eu me lembro quando você foi viajar pela primeira vez. Meu coração doía tanto. Eu quis me vingar saindo de casa, indo à padaria, à locadora, à uma esquina sem nada. Eu riscava os dias no calendário: faltam quinze, dezesseis, dezoito dias (porque parecia que os dias só ficavam mais distantes da sua volta). Eu me arrastava pela vida - foram vinte e poucos dias de angústia. Eu sei que eu exagerei, devo ter errado feio nesse exagero, mas a verdade é que eu tinha asma, porque era do seu peito que eu queria respirar.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Se um dia eu me casar

Se um dia eu me casar vai ser por tanto amor, mas tanto amor, mas tanto amor, que não vai caber mais nada, acho que nem festa de casamento vai ter - vai ser tanta alegria, tanto prazer tanto só-eu-e-ele que nada mais vai precisar. Se um dia eu me casar, vai ser o dia mais lindo que o mundo já viu passar.

Lado errado

Foi o vento que levou tudo de mim. Eu tenho certeza que foi. Minha mãe não mudou nada de lugar dessa vez, eu não mexi, ninguém mais passou por aqui (e se passou, não levou nada). Foi o vento sim, eu vejo as folhas balançando pro lado errado. Se foi culpa da natureza, então eu já posso culpar alguém. E eu me despeço, despedaço, desconheço. Adeus.
Outro dia minha vida me perguntou o que eu queria.




(Eu sabia o que responder, mas fiquei em silêncio.)

Vinte e seis

Vinte e seis dias
vinte e seis planos
vinte e seis lágrimas
vinte e seis garotos
vinte e seis gargalhadas
vinte e seis desesperos
vinte e seis cadarços
vinte e seis insetos voando
vinte e seis iogurtes de morango
vinte e seis peças de teatro
vinte e seis conversas profundas
vinte e seis minutos desperdiçados
vinte e seis e eu não quero mais
não quero mais perder tempo
eu não quero mais perder os meus (únicos)
vinte e seis anos

terça-feira, 7 de maio de 2013

Fins

Eu percebi que eu já não sou mais a mesma quando escrevi um texto lindo sobre alguém, mas fiquei com preguiça de terminá-lo e escrevi qualquer coisa no fim. Quando li aquele fim eu me dei conta: estou me deixando pra trás. Eu não me importo mais com os fins.

terça-feira, 23 de abril de 2013

O que vai ser

O que vai ser de mim se eu abandonar tudo?
Ou pior: o que vai ser de mim se eu não abandonar nada?


Os seus silêncios ainda me incomodam




Pessoas

Eu vejo e ouço pessoas felizes por todos os lados.
Não sei se elas são felizes de fato,
mas eu as vejo,
e as ouço.
Não sei se são felizes de fato,
mas não importa porque eu as invejo até a última gota.
Invejo o amor que elas sentem e que outros sentem por elas,
invejo a leveza delas ao caminhar,
invejo a falta de culpa no peito,
o peito cheio.
Eu invejo os sonhos que elas conseguiram realizar.
Eu sonho em ser igual a elas.
Mas eu não sou,
eu não sou.


quinta-feira, 18 de abril de 2013

sinal sinal sinal sinal sina

Você acha que a vida é um sinal que eu sou um sinal que a música é um sinal que você é um sinal que nossas conversas são um sinal que a poesia é um sinal que a artista é um sinal que o sinal é um sinal e que esses sinais são a maior prova de que a vida é mágica. Também acho.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Por que, Prata?

Chorei agora com um texto besta, mais um, do Antonio Prata sobre a esposa que está grávida. Chorei porque eu continuo achando que ninguém vai escrever um texto bonito pra mim daquele jeito, muito menos quando eu estiver grávida. Chorei porque a gente vê que o Antonio Prata tem uma admiração pela mulher que é digna de um altar, chorei porque essa admiração é um sonho pra mim. Eu já tenho o sonho totalmente frustrado de ser ter pessoas que admirassem o meu trabalho, então que pelo menos eu tivesse um homem que admirasse a minha pessoa e só. Mas admirasse como o Antonio Prata admira a mulher, como meu pai admira a minha mãe, como um homem deve admirar a sua mulher. Eu sonho com isso, e sinto que nunca vou ter. Se não fosse o Prata pra me lembrar disso hoje, seria mais um dia que passaria batido, sem que eu me lembrasse que há homens que admiram as suas mulheres.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Eu deixei você partir

Eu sonhei que você vinha, destino, fantasiado de um dia comum. Eu nem te notava, eu te esnobava, eu seguia reto. Ao longo do dia fui percebendo que você não era um dia comum, não era só mais um. Fui descobrindo e me animando, querendo te entender, te conhecer, te viver em cada instante. Mas a noite chegou logo e você foi embora, destino, porque eu demorei demais para aproveitar a sua chegada. Você estava magoado comigo e foi embora, destino, com lágrimas nos olhos, prometendo nunca mais voltar. Engraçado que eu acordei e tive a sensação de que não era um sonho.

o seu

Eu posso até fingir que não me interessa
como já venho fazendo a um tempo
- tanto tempo
mas um dia você vai ter que me contar
tudo, tudo, tudo
que te preenche
que enche os seus olhos de chuva
um dia eu vou me cansar de não saber de nada
eu vou me cansar de não ouvir o seu coração
por mais bobo que ele seja
ele bate por algumas coisas
e por outras não
- quero saber de todas elas
mas é só você que pode me dizer
eu não vou adivinhar
eu não tenho bola de cristal
e nem quero ter.

terça-feira, 26 de março de 2013

Marina e Ulay

Ele sentou na cadeira. Ela olhou, olhou, e na verdade não demorou muito para que seus olhos lacrimejassem. Ela não deveria, mas esticou as mãos, precisava tocar nele, mesmo que fosse uma pequena transgressão. Foram muitos aplausos, mas ela não os escutou. Ele também não. Ela olhou para ele com mais atenção do que para qualquer uma das seis mil pessoas que sentaram naquela cadeira nos últimos tempos. Reparou em absolutamente todos os detalhes da sua face. Como envelheceu, ela pensou, mas como está bonito. Ela lembrou das discussões filosóficas que tiveram dentro daquele furgão velho, lembrou da quantidade de vezes que fizeram amor, do quanto ele a implorou para que parasse um pouco de fazer arte para que pudessem viver juntos no Nepal. Ela sempre recusava. Eu sou artista, está no meu sangue, dizia. Ela lembrou do quanto ele a fazia criar obras mais profundas do que normalmente, mas que um dia tudo ruiu. Essa questão do espaço, que eles já não tinham mais. Era difícil conviver tanto tempo em tão pouco espaço. As discussões viraram brigas e ele resolveu partir. Foi consensual, ela também topou. A coisa estava desgastante demais, não dava mesmo. Então eles se despediram como dois adolescentes e nunca mais se viram, até aquele dia. Fazia 12, 13, talvez 14 anos. Ele estava agora a alguns palmos de distância dela. E ela precisou mesmo transgredir a obra e pegar nas mãos dele. As mãos frias do homem que mais amou. Então ela soltou as mãos dele e enxugou as lágrimas. Ele ficou ali, paralisado alguns segundos, esperando alguma coisa. Nada. Foi só um encontro. E foi embora.

Aniversário de Barueri

Você um dia me agradeceu por ter feito sua vida ser um pouquinho melhor, ou algo assim. É com um pouquinho de dor (da saudade que já sinto) que eu digo que quem deve agradecer sou eu, porque é você que me faz lembrar de tempos em tempos do que eu sou feita e que a vida não precisa ser assim. Quando eu te encontro eu fico com vontade que tudo volte a ser mágico, porque os nossos encontros sempre são, mesmo que o melhor bolo de chocolate do mundo não seja o melhor que eu já comi. Eu é que devo agradecer, porque é você que me fez dormir tarde hoje para escrever. Porque eu amo escrever, e a vida não precisa ser assim. "Você pode dormir menos", você disse. Eis eu aqui.

sábado, 23 de março de 2013

lá fora

Tem todo um mundo lá fora, um mundo fascinante de pessoas como eu - que não pertencem aqui. Eu dei uma espiada nesse mundo algumas vezes e sempre que volto de lá me volta a dor de existir. Eu de repente me lembro o motivo pelo qual as vezes me dói tanto - porque eu não sou daqui, porque aqui as pessoas não sabem do que eu estou falando, porque esse mundo daqui é muito pequeno e restrito, aqui eu tenho que respirar conforme o ar - e então volta a doer. Como dói, Deus, como dói. A última vez que eu vi esse mundo, eu era uma estranha, eu não conhecia ninguém naquele universo que era para ser meu também. Eu preciso chegar lá e ficar. Eu me apresento aos poucos, as pessoas me cumprimentam de longe e pouco a pouco vão me abraçando. Eu preciso ir pra lá, esse mundo não tem graça pra mim, nunca vai ter - eu não sou daqui. Estou perdendo tempo da minha vida aqui, tempo precioso, um tempo que não tem volta. Não quero chegar lá quando eu for velha e os meus olhos estiverem acostumados a não chorar mais. Eu, que sou feita de lágrimas.




sexta-feira, 22 de março de 2013

Preciso ir

Meu superego me engoliu.
Não sobrou nada além de mil perdões, adeus.

quarta-feira, 20 de março de 2013

Eu não escrevo mais

De repente eu acho que perdi o que me sustentou durante anos.

banheira

Essa foi uma daquelas noites -
fiquei olhando para o teto do quarto
olhando, olhando, esperando.
Na cama, no sofá, no chão da cozinha:
esperei.
Nada da sua voz, do seu cheiro,
nem um sinal de você.
Aceitaria um suspiro do outro lado da linha,
uma tosse, o barulho de um carro de fundo,
um silêncio até - mas nem isso.
A espera foi tanta que os relógios todos da casa
sangraram mais do que eu.
Despejei água na banheira,
o barulho da água me fez chorar
lembrei daquela banheira de amsterdam
lembrei da sua saudade de mim.
Eu já fui a sua prioridade
a sua maior vontade
eu já fui.


terça-feira, 12 de março de 2013

Se tornarem coisas

Quando eu acordo é sempre o mesmo café que espera para ser feito, o mesmo jornal que espera para ser lido e a mesma torrada que recebe requeijão. Gosto de as vezes parar pra pensar nessas coisas todas a noite como devem ficar. A torrada lá, dentro do plástico com as outras torradas (que ainda não viraram torradas), o leite esfriando dentro da geladeira, a cápsula de café esperando para se tornar um café fresquinho - mas ainda é só uma cápsula. As coisas na madrugada, esperando para acontecerem. A noite toda elas esperam, silenciosas em seus espaços. Enquanto isso eu durmo. E acho bonito as coisas esperando para se tornarem coisas. Acho bonito nada ainda ser.

você me olhava diferente

O meu amor por você pode ter sido curto
mas foi barbudo e verdadeiro.
Você, o Pessoa e aquela janela
- e o meu medo
do seu filho, dos seus dez anos a mais,
do seu pé no chão.
Eu sei que te deixei sentindo falta,
mas as vezes o amor é mesmo curto
nem sempre barbudo
mas sempre verdadeiro.

sábado, 23 de fevereiro de 2013

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Desde o começo

Me acorda quando ficar claro que a minha vida já começou.

I'm happy

I'm happy
I'm happy
I swear to God I'm happy
(just a little upset, or worried
or alone
- but that's all.)

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

A hora

Que a velhinha chegue aos poucos, vestindo aquele velho capuz. Que ela diga palavras doces, que façam todo sentido pra mim. Quero uma viagem gostosa, e que a minha alma vá calma sem sentir nenhuma dor. Quero que seja de repente, e que eu só não me surpreenda porque eu já sabia (sempre soube) que ela chegaria. Quero que a morte me pegue no colo, como um bebê. Cante uma música, me faça carinho, me seja boazinha. Eu quero ir embora em paz, de repente partir, bem na hora que for a hora (e essa hora pode ser até agora).

Anti-poema

Desaprendi a escrever,
a querer
a todos os verbos com er.
Desaprendi a sentir vontade,
saudade 
e todas as palavras com ade.
Eu não sei mais rimar, amar
e tudo que acaba com o ar.
Não tenho mais delicadeza
nem doçura, nem meiguice.
Eu sou uma triste enrustida,
eu sou uma fraude.
Eu não sou o que deixei de ser faz tempo.
Restou sabe o quê? Adivinha. 
Nada, claro, nada restou de mim.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Distante um pouco

Dormir e pensar que amanhã alguma coisa vai ter mudado. Bobagem, mas daqui a um monte de amanhãs talvez. E são esses amanhãs que eu espero ansiosamente.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

Ficção

Parece que a minha profissão me deixa alienada. Descobri esses dias que há coisas acontecendo na minha vida sem que eu faça parte. Essa profissão, essa rotina me aliena de mim. Passo o dia escrevendo  notícias velhas sobre outras pessoas que não são nem eu e nem ninguém que eu conheça. Fico buscando informações sobre pesquisas que não importam, talvez para ninguém. Já me perdi tantas vezes para depois de semanas trabalhando quase sem parar ver que eu já não sou mais a mesma. E não estou falando de mudanças óbvias que todo mundo passa diariamente, estou falando de crenças, de opiniões, de atitudes, de alma. Eu estou mais cega para tanta tristeza do mundo e mal consigo sofrer as minhas. Mal consigo definir quais são as minhas alegrias, as minhas prioridades, o que eu vou fazer com a minha vida. Eu não sei mais por que eu insisto em estar aqui se a minha impressão é que eu devia estar do outro lado de tudo. Eu preciso sair, eu preciso ir embora, eu preciso de um empurrão, de um chute, de um adeus. Eu preciso ir por aí a procurar, rir pra não chorar. Não sei mais o que do que eu gosto, do que os meus amigos gostam, não sei mais o que eu faria se eu tivesse um dia todo para mim. Eu não tenho mais nenhum dia para mim, eu não tenho mais nada. Eu não me tenho mais. Socorro, alguém me tira daqui, alguém me ressuscita, alguém me tira dessa ficção que eu não chamo mais de vida.

Por favor, escorram

Há uma porção de lágrimas engasgadas nos meus olhos. Não sei como chorá-las, não sei como fazê-las escorrer. De vez em quando eu sinto uma dor qualquer e noto que elas ficam de prontidão, mas se recusam a cair. Eu tenho certeza que só quando eu conseguir fazê-las escorrer durante algumas horas (talvez dias) é que eu vou conseguir viver esse resto de vida que tenho pela frente.

domingo, 20 de janeiro de 2013

sonhadores que s(f)omos

Essa é a primeira vez que eu falo sobre você. Depois que a gente se conheceu naquele dia estranho, naquela festa estranha, naquela noite completamente estranha, eu nunca mais mencionei o seu nome. Me forcei a faze-lo não existir, nem mesmo como lembrança. Uma memória que, esquecida mil vezes, poderia se tornar inexistente. Não foi bem isso, porque de vez em quando ela voltava a mim. Eu fazia-me de surda, surda por dentro. Mas ela estava lá, mesmo que eu não escutasse, havia uma imagem. Uma imagem que confesso: me deixava triste. Você é uma memória triste e eu não posso mudar isso, nunca poderei. Nem que um dia eu te reencontre maduro, engraçado, leve, a memória será aquela. Você não era leve, nunca soube direito quem era você e de repente foi embora para nunca mais. Nunca conheci ninguém nessa vida que gostasse de ver uma pessoa partir para nunca mais sem nem esboçar um adeus. Não conheço. Você talvez conheça.

domingo, 13 de janeiro de 2013

coragem demais

E que largar a estabilidade para uma incerteza qualquer

seja ela qual for

é preciso coragem demais

e eu não tenho

sábado, 12 de janeiro de 2013

Outside

Im not as happy as I used to be
but people never is
Im not going to change right now
Ive been too long without my bulletproof vest
And I know its dangerous outside
even when you invite me to leave
I get too scared 
I dont know you
How dare you invite me
when we know its a mess out there
Why dont you forget my name
and call another?

Quase perdi

De repente
eu olhei o relógio
muitas horas tinham passado
tantas horas
que eu quase perdi a hora
de partir.
Eu 
quase 
fiquei.

our lyrics

"why not try at all if you only remember it once"

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Depois daquela mensagem

Tirou a mão do bolso, como se precisasse dela para falar, e enquanto olhava para o outro lado ele disse: pelo menos a sua dor você precisa carregar, ninguém vai carregá-la por você. Deixá-la de lado é um desperdício, um dia você vai acordar com a mandíbula doendo e vai precisar dela para enxergar o resto do mundo. Saí do quarto, mas senti como se alguma parte de mim tivesse ficado lá. O silêncio do corredor me assustou um pouco, mas eu estava concentrada demais nos meus pensamentos e esqueci de me assustar. Enxergar o resto do mundo. 

Lição

Existe um prazo na vida de uma pessoa para que ela aprenda a viver? Eu não sei se perdi o prazo. 

Não esse ano

Uma dor imensa de um dia que tinha acabado de começar, como se ele tivesse saído do meu últero. Assim foi o primeiro dia do ano. Os três segundos que eu fiquei sozinha olhando o mar, meia noite e dois, três, quatro, ouvi o universo pedindo para eu dar licença que ele queria passar. Dois dias depois, o mar ainda não tinha saído de mim. E eu estava presa numa sala sem janelas para vomitar o mar. Tomei um remédio para ressaca e o que passou foi a vontade de tudo. O mar ficou em mim, me misturando por dentro, como se eu fosse massa de bolo. Um bolo que não vai ficar pronto, pelo menos não esse ano.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

que ele me roubou

O que fazer com esse coração estancado
dele nada mais sai e não adianta forçar
nada mais entra tampouco
vida nenhuma, nem um comando
ele cumpre a função calado
frouxo, resignado
esse coração fajuto de nada mais serve
manda trocar porque esse eu não quero
peçam a troca imediata
troquem por outro órgão
pode ser musical, desses de igreja barroca
não, não, troquem por um pianinho
bem simples, não precisa de muitas notas
troco por qualquer coisa na verdade
ou não, joga fora logo
quem há de querer esse miolo de pão amanhecido
ele já foi bom um dia, acredite
ele já me convenceu que era um coração
eu acreditei, até fiz ele funcionar
acho que ele não gostou da ideia
joga num lixo que não recicle
se reciclar ele pode virar um imã de geladeira
ou um ratinho de dar corda
eu prefiro ver meu coração despedaçado, enterrado
eu prefiro que ele exploda, que ele se afogue
uma morte morrida ao coração
uma morte doída, que faça sair sangue
nem que seja um sangue preto, seco
nem que seja o sangue que ele me roubou a vida toda.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

mundo a, mundo b

De repente comecei a pertencer a um mundo que não é o meu.
De repente me dei conta e quis voltar ao meu mundo.
De repente eu já não sabia mais o caminho de volta,
de repente eu já não sabia mais qual era o meu mundo.

O que fazer com aquela vida

Quando ela se sentia linda eles ainda não se conheciam. Depois, quando foram apresentados, tudo já estava diferente. Ela já não sabia mais o que queria direito. Já não tinha muito rumo. Foi tudo muito sem querer e quando ela se deu conta, já estava deitada na grama, olhando para o céu e pensando no quanto estava perdida. Por algum tempo ela chegou a achar que ele estava a guiando para algum lugar, mas depois essa sensação passou e ela acordava todos os dias sem saber o que fazer com aquela vida. Ele nunca a entendeu. Alguma coisa nela o deixava encantado, alguma coisa inexplicável. Ela ficava lisonjeada, gostava do carinho. Mas se perdia mais e mais. Ela nunca mais se lembrou como era a sensação de se sentir linda.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Coincidência?

This photograph is my proof de que nada nessa vida é por acaso. Look, see for yourself: I love you.

domingo, 9 de dezembro de 2012

76 kg

Quando ele entrava no carro, pareciam setenta e seis quilos de tristeza pesando no banco. E quando ele saía, a tristeza continuava lá. 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Fake Plastic Life

She bought it at the highway. There were two people selling it on the corner of the highway. "How much" she asked, and they said it was so cheap she could take it for free, so she did. Don't ever ask her if she regrets having bought that life, because she died a hundred times trying to get rid of it.

Abyss

O abismo era pequeno demais para aguentar o peso da vida.
Eu só percebi o fim quando eu acordei no meio da noite e vi que você estava ali, mas era como se não estivesse.

domingo, 2 de dezembro de 2012


corte na barriga

Eu cortei a barriga, não sei onde e nem quando, mas me deu uma tristeza imensa em pensar que esse machucado vai cicatrizar antes de você me perguntar onde foi que eu cortei. 

fim de festa

Quando o amor deles era recém-nascido existia um sofrimento tão doce. Um sofrimento quase infantil. Eles não sabiam o quanto deviam se falar durante a semana e às vezes ficavam mudos, os dois. Inseguros e receosos. Um não sabia do outro, não sabia se era hora de ligar para o outro, se o outro iria se incomodar. Ah, que coisa, é normal esse negócio? É normal que eu sofra assim? É normal sofrer de silêncio? O momento do encontro era mais do que uma alegria, um prazer, era também um alívio. Um doce alívio. Tantos suspiros, surpresas, suspeitas. O amor foi amadurecendo bem devagar. E ele resolveu pôr pra fora o desespero da distância. Ou foi ela que o fez? Algum dos dois não aguentou mais. Os dois não aguentaram. Eles concordaram que aquele silêncio era doloroso, que devia acabar, que eles não precisavam sofrer com tanto amor de sobra. Foi difícil no começo e às vezes a distância voltava. Voltava o silêncio, voltava o vazio. E um sofria de um lado, o outro sofria do outro. Foi aos poucos que o vazio foi embora. E então, certo sábado à tarde ela acordou na cama dela, a pequena cama dela, e olhou o dia. Um sol lindo, um dia todo à toa, todo azul. Mas o amor não vinha, o amor não veio, o amor havia ido. Ela ficou sentada na beirada da cama, sentindo aquele sofrimento já não tão doce do início do amor. O mesmo sofrimento tão infantil, da falta de intimidade, da falta de dia-a-dia, de começo de amor. Ela sentiu o vazio e um medo. Um medo daquele ser um vazio de fim de festa.

Frase de filme

A gente mal se conhecia. Não que a gente se conheça tão bem hoje em dia, mas nos conhecemos melhor. Naquela noite a gente mal se conhecia. Ele encontrou uma posição confortável e quando o filme entrou na parte em que o protagonista decide largar tudo e ir embora, ele dormiu. Era um filme lindo. Eu fiquei me questionando se ele estava achando o filme chato, qual era o problema, por que ele dormia. Só muito mais tarde eu descobri que ele aprendeu a dormir em filmes desde criança e não importava se fosse bom ou ruim, filmes eram feitos para dormir - na cabeça dele. O garoto do filme, desapegado do mundo, levou quase nada e foi explorar um pedaço do mundo, o pedaço que ele conseguiu alcançar. Foi uma viagem maravilhosa. E quando eu comecei a aprender alguma coisa, quando eu comecei a sentir uma vontade imensa de chorar abraçada nele, não pude. Ele dormia profundo. É no final do filme que a frase aparece: Happiness in only real when shared. Chorei sozinha.

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

Rouca

Sabe aquele sonho tão típico de criança - você está em perigo e tenta gritar com tanta força - a maior força do mundo - mas a voz não sai, a voz está rouca. Sabe? Então.

Quase afogado

Antigamente você ficaria preocupado, você viria até aqui (com ou sem chocolatinho), você me diria coisas doces, você insistiria no meu sorriso. Antigamente, talvez um outro você, lutaria como se isso fosse uma batalha. Como se eu fosse um pequeno diamante raro, como se eu fosse muito mais do que eu sou. Antigamente, a sua voz me acalmaria. Você me acalmaria, você me faria feliz. Antigamente, não mais que antigamente, o seu amor resgataria o meu amor, esse quase afogado amor.

Mudar

De repente a vontade passou
- e eu não quis mais fugir.
Fugir não.
Eu só quis mudar de rumo.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Estrofe um

Posso escrever uma música pra você? Se você disser que não vai ser pior, porque eu já escrevi. Mas não se preocupe ela só tem uma estrofe, e eu cantei em silêncio.
Hoje eu me senti linda, mas quando dei por mim, já estava roendo unha de novo. 

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Um remédio com gosto de mim

Tomei um remédio, mas foi ele que me tomou.
Um remédio com gosto de mim.
O dia inteiro o remédio ficou preso na garganta,
me lembrando o gosto da doença.
A doença que o remédio não cura.
Eu tomei um remédio para a doença de mim,
um remédio com gosto de doença.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

sim eu quero

Eu só fui para aquela praia duas vezes na vida, mas podia imaginar exatamente onde ele estava sentado. Podia sentir o cheiro de mar e ouvir o barulho da praia quase vazia. Eu só fui para aquela praia duas vezes, mas sabia a quantidade de coisas secretas que haviam lá, escondidas em cada beco. Ele conhecia tudo. E eu fiquei sentada na janela do quarto, olhando para o mesmo céu que ele, pensando em coisas que só ele me faz pensar. Se você quiser eu te levo, ele me falou ao telefone. Mas a noite entrou no meu quarto e eu dormi antes de dizer sim eu quero.
Eu te amo, mas estou cansada
eu te amo, mas não dormi bem
eu te amo, mas não te entendo
eu te amo, mas tenho preguiça
eu te amo, mas estou com olheiras
eu te amo, mas você é tão diferente
eu te amo, mas você não fala nada
eu te amo, mas não te encontro
eu te amo, mas preciso de um cigarro
eu te amo, mas quero ficar em silêncio um pouquinho. Só um pouquinho, só até o dia amanhecer, só até a dor passar, só até eu nascer de novo.

È chiuso

A gente sempre chegava quando todo mundo estava indo embora. Era engraçado. "Encerramos o café da manhã, mas vocês ainda podem pedir pão de queijo direto no balcão." Ufa, conseguimos pelo menos que eles sirvam o nosso pão de queijo. Mas era assim no almoço e no jantar também. Eu às vezes ficava decepcionada com a nossa falta de cuidado com os horários estabelecidos das coisas. No primeiro dia de aula o professor já estava na metade da explicação quando a gente chegou. E nas outras aulas foi a mesma coisa. O pior é que gente se esforçava, juro. Subimos por um caminho longo, chovia fininho, fazia frio. Era nossa viagem de lua-de-mel, sem que a gente fosse casar nem nada. Nós dois estávamos com fome e queríamos ir no restaurante que o cara do lobby nos indicou. Cansados e famintos vimos as últimas pessoas saírem de lá, um bando de jovens locais. "È chiuso." "ma per favore, signora" "vá bene, venire presto!" Eu demorei pra perceber o que era. Eu demorei pra perceber que a gente não estava atrasado nem adiantado. O nosso negócio é que a gente sempre teve o nosso próprio timing. Os nossos horários eram só nossos e eram diferentes do resto do mundo, sempre foi assim.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Uma razão

O verão chegou um pouco antes do que deveria. Eu ainda não estava pronta para ele. Não tinha conseguido parar de fumar, não tinha conseguido emagrecer e nem deixar as unhas crescerem. O verão foi muito ingrato, quanto eu estava toda em forma ele não veio, me esnobou. Mas tudo bem, eu decidi que não ia sair de casa. É claro que a misantropia tem um limite e se não cuidar acaba virando uma depressão das brabas. Mas eu não fiquei com depressão, tenho aversão a essa palavra e a todo mundo que chega a esse ponto. Então me mexi antes de acontecer algo do tipo. Liguei para a Lola, fomos tomar um café. É claro que ela falou que eu estava péssima, que eu tinha que voltar a ter um foco, que uma hora a grana dos pais para de chegar, que eu tinha que voltar a escrever. Voltar a escrever? Ela foi boazinha, escrever obituários no jornal não é escrever. Eu amava a morte, eu amava descobrir que o homem que inventou a tampa do iogurte tinha morrido. Mas aquilo que eu fazia não era escrever, não era um emprego decente. Era totalmente substituível, qualquer estagiário podia fazer no meu lugar. Enfim, Lola, eu tô bem, não te chamei aqui para ouvir conselhos e nem lições, eu preciso de um favor. Preciso que você cuide do Roger pra mim. É só dar ração e limpar a areia dele. Ele é bastante limpo e não dá trabalho nenhum. A Lola ficou com cara de funeral, e eu conheço cara de funeral. Que cara é essa, relaxa, eu não vou cometer suicídio nem nada, só vou passar uns dias fora. Pipa é o nome da praia, no Rio Grande do Norte. O mesmo nome que eu queria dar pra minha filhinha, se eu tivesse uma. Vou ficar lá uns dias, conhecer um pescador gatão, tipo o Reynaldo Giannechini nas novelas em que ele é um pobretão gato. É, vou namorar um desses. E daí não vou querer voltar mais, mas vou precisar voltar por causa do Roger e do meu apê, que eu não vou conseguir vender. Vai ser lindo aquele drama todo para deixar o Reynaldão de lado e voltar pra cidade. Rimos muito com aquela ideia boba e ela aceitou ficar com o Roger. Quando cheguei na Pipa eu relaxei. Li todos os oito livros que eu levei. Na verdade sete, porque aquele da Virginia Woof me deixou muito profunda e eu tive que parar. Os dias foram passando lentamente, lentos demais. Eu tinha vontade de subir até a lua e agradecer por ela finalmente ter aparecido. A solidão é uma delícia nas primeiras semanas e não tinha nenhum Giannechini para perguntar o meu signo ou pedir um cigarro. Eu já estava parecendo uma mulata e os meus cabelos estavam loiros, bem loiros, como nunca. Resolvi cortá-los como naquele livro do Hemingway, em que a mulher vai ficando super bronzeada e linda, mas louca, e corta o cabelo bem curtinho. Cortei bem curtinho também. Mas não teve nenhum triângulo amoroso e eu não estava em lua de mel como no livro. Quase seis meses depois eu voltei pra capital. Lola ficou em choque, e riu da minha magreza ou dar minha cor, não sei. Cheguei no meu apê e o um cheiro antigo exalou forte. Era um cheiro de amaciante com flores mortas. Abri a janela e comecei a abrir a correspondência. Para Raquel, de Laura. Abri. Era um desenho da minha sobrinha e uma carta "mamãe falou que você quer deixá-la louca, que você sumiu por pura maldade com ela. Eu não acho que você faria isso, porque você gosta muito da mamãe. Cadê você? Estou com saudade e vou acabar aprendendo a andar de bicicleta sozinha, você tá demorando demais para vir me ensinar. Eu já até aprendi a fazer brigadeiro, quer vir experimentar?" Olhei a data no envelope, caiu uma lágrima. A data era a mesma do dia que eu fui para a praia, há quase seis meses. Peguei o telefone correndo.  "Laurinha?"

Reis e as musas

Sabe, uma vez eu ouvi a Lídia dizer coisas ao telefone. Eu sabia que ela falava com Ricardo. Eu tentei pegar na extensão do telefone para ouvir o que ele estava dizendo do outro lado da linha, mas não consegui. Só pude ouvi-la falar com a voz trêmula, aquela voz que a Lídia tinha quando chorava. Eu te amo, mas eu não quero mais chorar. Eu não quero mais me arrepender, e nem ficar doendo. Eu te amo também, e você poderia ser o pai do meu filho como você queria, mas não vai dar. Amar você dói o tempo todo. O nosso filho iria nascer de um corpo doído, um amor doído - ele iria nascer chorando e eu iria recebê-lo chorando também. Certo dia ele pararia de chorar, quando as cólicas passassem e os órgãos dele estivessem todos formados, mas eu não. Eu iria continuar chorando. O nosso amor nasceu errado, ele não vai parar de doer. Nunca mais ouvi Lídia falar de Ricardo, e Ricardo parou de escrever para ela. Mas todos nós sabemos que ela foi tola. Errou feio. Se despediu dele para parar de chorar e continuou chorando até o fim. Ricardo eu já não sei bem, dizem que ele conheceu outra mulher. Uma tal de Natália.

Resposta de jabuticaba

Era uma pergunta que ela não sabia responder, não queria decidir sozinha, queria uma resposta mágica. Como se ela pudesse perguntar a Deus e ele pudesse responder com um raio. Mas ela não acreditava em Deus e nem estava chovendo para que um raio caísse. E esse tipo de resposta óbvia de Deus era coisa de filme. Então ela lembrou que havia um saco cheio de jabuticabas na geladeira. Milhares e milhares de jabuticabas que a empregada havia colhido no parque vizinho. Ela decidiu que as comeria uma a uma até chegar a última jabuticaba - e se a última jabuticaba estivesse doce a resposta seria positiva, se estivesse azeda, negativa. Comeu, comeu e comeu até ficar cheia. Não cabiam mais jabuticabas no estômago, mas ela não ia desistir. Faltavam muitas ainda e ela começou a ficar com nojo da fruta. Mas continuou. Aprendeu a perceber quando a jabuticaba estaria doce e quando estaria azeda. Começou a escolher as mais azedas para se livrar logo delas, mas percebeu que dessa forma ela estaria escolhendo também a resposta que iria receber. Então foi comendo-as todas compulsivamente, como se fossem pipoca. Quando finalmente aquela bolinha preta imprestável era a última que lhe restava para comer, olhou-a, olhou-a, apertou-a e sentiu que estaria azeda pra burro, com um gosto horrível. Abriu a janela da cozinha e arremessou a jabuticaba bem longe.

sábado, 13 de outubro de 2012

Luis Fernando Mãos de Suor

Eu o conheci em uma formatura, em um casamento, em alguma cerimônia na qual os homens usam terno e gravata. Acho que era formatura mesmo, normalmente o primeiro palpite é o correto. Ele estava elegante, como a maioria das pessoas, mas me chamou a atenção porque o cabelo estava completamente bagunçado como se dissesse "estou arrumado só porque sou obrigado a estar", era o modo dele de se rebelar contra a formalidade da festa. Eu sabia que aquele não era o mundo dele. Conversamos por quase duas horas sem saber o nome do outro. Ele estudava psicologia na universidade estadual, morava no bairro nobre da zona sul e tinha 6 anos a mais do que eu. Luis Fernando. Meu telefone eu anotei na mão dele. E tinha certeza que ia virar um rabisco suado. Nada disso. Três dias depois ele me ligou. Me levou a um bar com samba de fundo musical e ficou falando de política. Eu era uma adolescente quase completamente alienada. Não sei porque ele insistiu no assunto depois que eu falei tanta besteira. Acho que ele só queria me impressionar. E impressionava, porque embora ele tivesse dito um monte de besteiras também, eu fiquei impressionada, porque qualquer coisa me parecia extremamente intelectual. Aquele dia nós nos beijamos. Eu não bebi, porque eu não bebia, e ele ficou intimidado com uma mulher (menina na verdade) não beber e pediu uma Sprite. O beijo dele era bom, não lembro bem, mas eu senti medo dele - não pela primeira vez. Eu tinha medo de homens que sabiam o que queriam. De homens que moravam sozinhos, de homens que falavam sério por mais de 4 frases, de homens que sabiam dirigir, de homens que não faziam a barba ou que parecessem intelectuais. É, talvez eu tivesse medo de homens que não fossem mais meninos. No dia seguinte ele ligou, e no seguinte também e no dia depois. Não consegui fugir mais e dessa vez o convite era para ir ao cinema. Eu tinha uma bolsinha pequena, que mais parecia uma carteira. E na hora de pagar, a moça do guichê me perguntou de um jeito meio rude: "você é modelo, garota?" Fiquei roxa de vergonha, mas também toda orgulhosa que a moça do guichê estava me elogiando na frente do meu paquera. Ele riu e falou: "Não, ela é atriz. Já fez duas novelas" E achou a resposta o máximo. Eu também. Ele olhou a minha fotinho na carteira de estudante e sorriu um largo sorriso, de apaixonado? Acho que sim. Entramos na sala. Eu deixei a minha bolsinha em cima da cadeira, ou acho que deixei, e precisei ir ao banheiro assim que o filme começou. Voltei, o trailer já tinha acabado e ele segurou a minha mão. Durante todo o filme a mão dele, em cima da minha, suava e ele a limpava na calça. Eu achei fofo. Demos um ou dois beijinhos e o filme acabou. Ele era um cara legal e me deixou em casa. Assim que eu abri a porta, reparei que não estava com a minha bolsinha. Olhei para trás e ele já havia partido. Eu não tinha celular porque naquela época ninguém tinha celular. Ele não me procurou nunca mais e eu acho que ele roubou a minha bolsinha.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Ele assim

Eu soube que ele morreu quase um mês depois. Chorei porque foi um choque e não porque doeu. Fazia anos, muitos anos que eu não o via, nem tinha notícias dele. E eu nem me importava. Imaginava que ele era feliz do outro lado do mundo. Mesmo que essa palavra "feliz" carregue uma certa carga de hipocrisia e eu não concorde com ela. Ele parecia em paz. E que se dane se em fotos todo mundo pareça. A verdade é que eu nem me importava. Eu fui apaixonada por ele dos 12 aos 14 anos e não vou mentir que depois que ele foi embora ainda passei um ou dois anos me lamentando por ter perdido o grande amor da minha vida. Mas foi isso. Ele atravessou a minha adolescência. Talvez tenha mexido com algumas referências, talvez tenha me feito aprender inglês, talvez tenha feito com que eu fugisse de homens por um bom tempo. Passou. Foi isso. Ele faz parte do que eu me tornei em um determinado grau, mas sei lá, não vou fazer drama. A gente supera as pessoas. Doeu quando ele foi embora, há tantos anos, aquela foi de fato a despedida. A morte dele não. Pelas minhas contas tinha 28 anos (ou seria 29?). Esperei para saber se foi doença, acidente, destino. Foi dor. Dor de existir. Dor de sentir tanta dor. Ele não conseguiu aguentar. Eu não faço ideia o que aconteceu, só soube que ele se matou. No dia seguinte que eu soube, eu contei para um amigo: "você sabe o que significa a morte do primeiro amor?" Eu não sei. Será que até o trágico suicídio do meu primeiro amor tem algum significado simbólico? Mas o cara sofria, devia estar insuportável, como isso pode significar alguma coisa para alguém do outro lado do mundo, alguém tão do passado? Como isso pode significar qualquer coisa para qualquer pessoa? Ele não entendia algumas coisas que eu, como menina apaixonada, fazia para chamar a atenção dele e às vezes acabava me esnobando sem querer. Dava risadas divertidíssimas, e não entendia por que eu ficava brava. Mas depois ele se desculpava disfarçadamente, quando ninguém estava olhando. Ele era tímido e lindinho. O nosso adeus foi desencontrado. Eu fui procurá-lo na casa dele e naquele exato momento ele foi me procurar na minha casa. A gente se cruzou no meio do caminho, mas ele não conseguiu dizer nada, tímido que era, e só sorriu. Eu sorri de volta e a gente nunca mais se viu. Foi isso que ficou, e eu lembro dele assim: sorrindo um adeus.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Enquanto atravessava a cidade

"Me arrependi de você". Foi há algum tempo que ele me falou isso. Ele não olhou nos meus olhos, e por isso não viu que as palavras dele fizeram dos meus olhos uma janela emoldurando a chuva. Me doeu da unha aos ossos, pelos, cabelos. Me doeu o peito. Eu me vi atravessando a cidade e me perdendo em ruas escuras às três da manhã em direção ao apartamento dele. Me vi no apartamento dele, tentando disfarçar o meu medo daquilo tudo e ouvindo ele corrigir o que eu dizia, porque eu dizia muita bobagem. Eu me vi chorando na volta, cheia de álcool no sangue, entrando em todas as ruas do país antes de descobrir que eu estava na direção contrária da minha casa. Eu me vi chorando em casa, no banho, limpando o choro. Eu vi a quantidade de vezes que eu atravessei a cidade, que eu me enfiei no peito dele, na cozinha da casa dele, no mundo dele. Eu sempre fui sozinha e já havia dito a ele que tenho uma espécie de pacto com a solidão. Ele talvez não entendeu, talvez deixou passar, talvez esqueceu. Não me importa, ele me disse que se arrependeu.

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Asa de borboleta

Ela foi assaltada, como todo mundo é nessa cidade, como todo mundo nessa cidade sabe que vai ser um dia. Mas com ela foi diferente. E foi diferente porque ela é diferente de todo mundo nessa cidade. Ela buzina, dirige mal, corre, se estressa e grita palavrões horrendos no trânsito. Mas ela é quase de vidro. Não, vidro até que é resistente, ela é feita do mesmo material que a asa de uma borboleta. Você já tocou na asa de uma borboleta? Ela se desfaz na mão. Deixa um brilhinho nos seus dedos e desfaz. Ela é isso. E quando o adolescente quebrou o vidro do carro dela, ameaçou-a com uma faca e ela viu de perto aqueles olhos drogados, ela se desfez. Deixou um brilhinho no banco do carro e sumiu. É claro que o corpo dela estava ali, em lágrimas, mas quem a conhece sabe que ela de fato não estava. Eu tenho tanto ódio daquele menino, porque o que ele fez com aquela asa de borboleta vai ser difícil consertar. Ela já era medrosa, ficou mais. Já tinha medo de dirigir, tem mais. Ela já tinha pesadelos, acordava chorando. Eu não quero pensar como vão ser as noites dela agora. Eu queria mesmo era velar o sono dela a noite toda. E se ela acordasse num susto, de repente, eu faria que nem ela fez comigo quando o meu primeiro amor foi embora. Eu não conseguia dormir, chorava, chorava, chorava. Não conseguia fazer mais nada. Ela entrou no meu quarto no meio da madrugada, acendeu a luz, pegou um caderno no chão, uma caneta e fez um jogo da velha. "Vai, é a sua vez." Depois de duas partidas eu roncava que nem um porquinho na lama. Acordei doze horas depois. E foi assim durante várias noites, até eu cicatrizar aquele amor de criança. Eu queria jogar jogo da velha com ela, até o brilhinho da asa de borboleta voltar, até a borboleta voltar a achar que o mundo são flores. Porque o mundo não são flores, o mundo é horrível, o mundo são meninos drogados que ameaçam pessoas, eu não quero mais falar sobre o que o mundo é, me dá dor. Mas ela, ah, ela deixa brilhinho de borboleta nas mãos.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Enxergo bem sem eles

Detesto quando alguém pega os meus óculos pelas lentes. As digitais ficam marcadas e é chato para tirar. Quando ele pegou os meus óculos no meio da festa foi pior: os dedos dele estavam engordurados. Ele estava bêbado e cheirava a perfume feminino, como se tivesse acabado de sair de um abraço, ou pior: de uma mulher nua enrolada num lençol branco. Eu não aguentei aqueles dedos. A minha vontade era de pegar uma faca, como no filme Silêncio dos Inocentes, e fazer o que o Hannibal ameaça fazer com o pulso da mocinha. Essa era a minha vontade. Ao invés disso eu deixei ele pôr os dedos imundos nos meus óculos e ficar se exibindo que nem um babaca pela sala. Ainda bem que a música era alta o suficiente para que ninguém ouvisse o que ele gritava. Só eu ouvia, porque eu já havia quase decorado as coisas que ele dizia quando ficava bêbado. Eu saí, fui ao banheiro e procurei pelas gavetas: na casa da Bia sempre tinha uma cartela de antidepressivos no banheiro de visitas. Ela tinha uma filosofia infantil segundo a qual antidepressivos deviam ser compartilhados. A Bia era uma cretina. E eu estava certa: os comprimidinhos brancos estavam ali, lindões. Tomei um e fiquei sentada na privada esperando algum efeito. Quando eu acordei às 6h14 da manhã de sábado os meus óculos estavam imundos, jogados do lado do lixo. Eu estava toda torta no chão do banheiro, meu cabelo estava igualzinho ao do Wilson, o amiguinho-bola do Tom Hanks. Eu lembro de passar a noite tentando caber naquela droga de tapetinho minúsculo porque o chão ardia de tão gelado, mas eu tenho 1,68m de altura e o tapetinho tem o tamanho de um tapetinho. Lavei os óculos por 23 minutos sem perceber que eles já estavam brilhando, e que eu estava pensando na morte da bezerra. Não, eu estava pensando por que o V. havia largado os meus óculos no chão do banheiro. Fiquei imaginando que ele estava tão bêbado que nem me viu, ou tão bêbado que nem percebeu que eu era a Bela Adormecida. Depois que eu sequei as lentes, joguei os óculos no chão e como eles não quebraram, eu pisei em cima. Ao vê-los espatifados, eu comecei a chorar, mas eu enxergo bem sem eles. Saí pela casa à procura da minha bolsa, e quando a encontrei passei a ficar desesperada para sair dali, mas fui interrompida por uma lembrança. A foto. Eu tinha uma foto de nós dois dentro da bolsa: eu e o V. abraçados no cais. A represa atrás da gente foi cúmplice do nosso amor de cinco dias. Os exatos cinco dias mais felizes da minha vida, ou talvez os únicos. Rasguei a foto em mil pedaços. Tive vontade mesmo era de rasgar os meus olhos.

domingo, 9 de setembro de 2012

12, 14, 14.

Eu tinha doze anos quando meu pai saiu de casa. Era dia quatorze de outubro. Eu lembro direitinho da época, eu estava apaixonada pelo Bruno, um menino da minha sala. Eu não conseguia olhá-lo nos olhos, então lembro direitinho de todos os tênis que ele usava. O meu preferido era um que tinha um galo desenhado. A marca chamava Leco alguma coisa. Lecospirit? Não lembro. Meu pai não falou tchau pra mim e nem para os meus irmãos, é claro. A gente era muito pequeno. Mas a minha mãe foi sacana. Ela estava ressentida e cheia de amargura, então se vingou do meu pai por meio da gente. Ela entrou no quarto de brinquedos e falou bem alto: o papai foi embora. A gente nem olhou para ela. Eu estava montando uma casa para a Ariel, e a parte da cozinha sempre dava muito trabalho, eu tinha que me concentrar porque se caísse um copo, todos cairiam junto. Acho que o Dudu estava jogando tetris, não sei, ele não tirou os olhos das peças que caíam. O Lucas com certeza estava jogando Super Nintendo. Ele não largava aquela droga. A mamãe ficou furiosa. Meninos, o papai foi embora de casa. Ele não vai voltar, ele largou a gente. E começou a chorar. A gente já tinha se acostumado a ver a mamãe chorando, mas dessa vez ela caiu no chão. Ficou de joelhos. O Dudu foi o primeiro que levantou. Ele, em pé, tinha a altura da minha mãe de joelhos. Abraçou ela. Ele falou: o papai volta sim. Ele não consegue ficar muito tempo sem comer o seu bolo de laranja! Tadinho. Eu me aproximei. Confesso que fiquei com medo daquele abraço. Eu sabia que o papai não voltaria, eu sabia que aquela droga de abraço ia ficar registrado. Eu sabia que o buraco ia existir para sempre. O Lucas ficou olhando pra gente. Ele não veio. Ele desligou o videogame, passou do nosso lado e foi pro quarto. Eu pensei no Bruno da escola. Será que ele ia abraçar a mãe dele ou ele iria passar reto e ir pro quarto? Fiquei triste, porque eu não ia poder contar pro Bruno o que aconteceu. Eu nunca tinha falado com ele na vida. Aquele abraço durou uns cinco minutos, mas é claro que na minha cabeça parece que foram algumas horas. Parece que eu saí daquele abraço já adulta. Não sei mais o que aconteceu depois, não lembro do dia seguinte, mas eu lembro de duas semanas depois. O meu pai ligou. Eu vi que era ele logo de cara, porque ele pigarreou daquele jeito nojento. Eu atendi o telefone, eu tava sozinha em casa. A casa da Ariel tinha ficado linda, mas eu quase não conseguia andar no meu quarto. Eram ermários em miniatura, tapetinhos, cadeirinhas, tanta coisa. Demorei pra conseguir desviar de tudo e ir para o quarto da mamãe atender. Quando atendi ele ficou mudo. Eu esperei, esperei, e quando ele pigarreou eu falei: pai? E para a minha surpresa ele não desligou. Pai, eu acho que não gosto mais da Turma da Mônica. Acho que cansei de ver a Mônica sempre brava, o Cascão sujo. Sei lá, acho que eu não gosto mais de nenhum deles. Meu pai sorriu. Eu sei, porque eu sei. Eu queria que ele insistisse na Turma da Mônica, foi ele que me deu de presente a assinatura dos gibis. Eu queria que ele ficasse bravo, triste, que ele chorasse. Mas ele não chorou, ele sorriu. Eu tinha separado todos os gibis numa caixa, e deixado do lado de fora de casa, para o cara da reciclagem levar embora. Meu pai não desligou e eu sentei no braço do sofá, fingindo que era o colo dele. Desengatei a falar sem parar. Falei do Bruno, da professora de matemática que detestava ser professora, da casa que eu montei para a Ariel, do novo amigo ridículo do Lucas. Uma hora ele falou comigo. Eu quase caí do sofá. Ele disse: e a sua mãe? Eu menti. Ela está diferente, linda. Saindo muito. Mentira. Mamãe estava igualzinha, um pouco mais triste, mais gorda e nunca saia de casa. Ele suspirou, disse: Eu preciso ir, desculpa. E puff. Desculpa por que ele precisou ir naquele momento ou desculpa por que ele largou a minha mãe, eu e os meus irmãos pra sempre? Nunca mais eu ouvi o meu pai. Até ontem. Ligaram do hospital. Meu marido que atendeu. Câncer, dá pra tratar, o diagnóstico foi cedo. Venham sim. Quarto 14. No dia 14 de outubro meu pai saiu de casa. Eu entrei no quarto 14, e de repente eu perdoei o meu pai.