sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Rasgue todas as cartas anteriores, é essa que vale:

Não sei mais, Oscar. Acho que você me deixou muito sozinha todo esse tempo e agora eu também não quero mais a sua companhia. Fiquei esperando uma notícia sua e conforme ela não chegava eu fui murchando, murchando e agora acho que eu não consigo mais ver a mágica. Ela sumiu. Eu sei que a culpa não é sua, mas eu nunca encontrei ninguém para me falar da mágica além de você. Eu suspeito que você encontrou alguém para levar para a outra camada da Terra, já que eu sempre insisti em ficar. É, acho que a culpa foi minha. Não precisa rasgar nada, só me deixe aqui que eu sei me adaptar como ninguém. Ana.  

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Caroço

O laudo médico não identificou, mas existe um caroço instalado no meu peito. Eu sei que ele está lá, porque o que sinto agora não é um sentimento, é um caroço.

O que você quer?

O que eu quero não deve estar em você, deve estar em mim. Não é uma resposta fácil, nem sei se consigo responder. O que eu quero é saber se estou no lugar certo. Achei que de repente você pudesse me ajudar a descobrir, já que você me fez pensar em tanta coisa. Você me disse coisas que eu gravei no bloco de notas e sempre que me dá branco da vida eu leio. O que eu quero é sentir alguma coisa. O que eu quero é aprender, é ouvir, é descobrir. Eu não sei o que eu quero. Eu quero sumir, mas não quero sumir sozinha e talvez nem queira sumir muito, só um pouquinho. O que eu quero? Não quero nada, desculpe incomodar.

domingo, 5 de outubro de 2014

Quinze minutos

Não troquei a roupa de cama, não estudei meu texto, não limpei a gaiola, não dormi 12 horas, não conversei com você, não terminei meu livro, não escrevi nada que preste, não assisti nada que preste, não fiz nada que queria e agora faltam quinze minutos para ser segunda-feira de novo.

Já saímos

Você pede vinho tinto
torradinhas
pede para baixar o ar condicionado
bis pro jazz
pede licença pra ir ao banheiro
volta, senta, dá um gole no vinho.
Qual o nome do garçom, vamos trocar de mesa?
Trocamos
Agora sim, dá pra ver melhor a banda
o cello, o piano, a mulher cantando
Você pede uma água gelada
mais gelo, mais pão
pula a entrada, pula assunto de trabalho
pula esse assunto também
"Passa logo eleição,
não aguento mais pesquisas"
Acho que vou pular a sobremesa
Cafê, palitos de dente
guardanapos com marcas de batom
Eu olho a mesa vazia:
nós já saímos.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Livro de flores

Toda sexta-feira (ou quase toda) era dia de brinquedo. Na verdade, acho que só uma sexta-feira por mês. É, devia ser uma por mês porque eu lembro de ser um dia especial, devia ser raro. Naquela vez eu tinha ganhado um livro do meu pai sobre flores, um livro duro com ilustrações em papel transparente mostrando as pétalas, as sementes, os bichinhos que ficam em flores. Eu tinha adorado o livro, mas eu gostava mesmo era de brincar de boneca. Fui pegar as bonecas na prateleira para levar para o dia do brinquedo quando o meu pai perguntou: "vai levar o seu livrinho novo?". Eu não ia levar, ia pegar minhas bonecas cor de rosa, mas algo me fez ficar com não sei que tipo de sentimento: pena, gratidão, carinho. Levei o livro. Ele sorriu, mas eu tenho certeza que nem se deu conta a importância daquele meu gesto. Cheguei na escola um pouco nervosa, as aulas foram todas meio difíceis, mas eu sobrevivi até a hora do recreio. E então, na hora do recreio, eu mergulhei em profunda tristeza: as meninas se juntaram todas numa rodinha com as suas bonecas e brincaram. Eu fiquei do outro lado, sentada na escada com meu livro de flores, só olhando.

Coraçõezinhos

Sempre penso naquele dia que a D foi a rainha soberana entre os colegas. Ela mandava e todos tinham que fazer o que quer que fosse, embora a ordem fosse basicamente para ficar bem ou mal com alguma pessoa. Era um código secreto que nós crianças fazíamos sem que nossos professores percebessem. Nesse dia a ordem era para ficar mal comigo, todo mundo obedeceu. Todo mundo menos o Arthur que, distraído como sempre, nem percebeu o que estava acontecendo. Ele sentou do meu lado e aceitou brincar de desenhar comigo. Eu lembro direitinho do desenho no papel: coraçõezinhos de ponta cabeça. Ele ficou tão vermelho quando reparou no papel que eu acho que ele - tão pequenininho - interpretou qualquer coisa no meu desenho.

D.

Muitas das minhas lembranças da infância levam D comigo. Acho tão doce esse pensamento de que quando eu era pequena brincava tanto de boneca, de faz de conta, de pequenas pessoinhas do tamanho de um grão de arroz. Mas o mais doce é pensar que o meu jeito de brincar era igual o jeito que D brincava. E a gente mais ria que brincava. A gente ria de absolutamente tudo. Lembro de nós duas descobrindo a adolescência juntas. Ficávamos espantadas com meninos olhando nossas saias. "Mas que diabos tem de tão legal nessa sainha de praia?". A gente era maior que tudo isso. Maiores que qualquer coisa. Porque a gente tinha aquela cumplicidade de quem brincava de Barbie juntas. Um dia eu tive uma despedida importante na minha vida e ela estava do meu lado. Ela chorou comigo. Mas acho que aquele dia foi nossa despedida também, nunca mais eu vi D.

Tento não

Tento não pensar muito nas coisas, nos tempos.
Tento não raciocinar, igual àquelas pessoas que frequentam igrejas, cegas.
Tento não me aproximar demais de certas pessoas, dessas que arrepiam
os nossos pelos da pele
Tento, tento, tento
E de tanto tentar
continuo tentando.



terça-feira, 23 de setembro de 2014

Beliscão

Eu tinha cinco anos. Era pequena, barriguda e modéstia parte, tinha cabelos lindos. Adorava brincar com massinha de modelar - me sentia uma artista plástica quando me davam massinha. Adorava também a caixinha de sapato com itens de higiene ou a "caixinha de higiene", como chamavam lá na escola. Dentro dela a gente guardava 1 escova de dente, 1 pasta, 1 toalhinha, 1 sabonete e 1 pente ou escova de cabelo. Eu gostava de colocar o casaco verde do uniforme pendurado em um dos ganchinhos na parede lateral da sala. 
Nesse dia específico eu estava voltando do banheiro a caminho da sala de aula, quando uma aluna bem menor do que eu se aproximou. Era loirinha, tinha cara de atrevida e devia ter uns 3 ou 4 anos. Bem, esse projeto de gente se aproximou de mim e ficou me olhando curiosa. De repente, me deu um beliscão no braço. Fez jus a cara de atrevida, peste danada! Eu lembro de ficar confusa, nervosa (porque doeu!) e pensar um pouco antes de tomar uma atitude. Então eu fiz exatamente o que me parecia mais apropriado: dei um beliscão de volta na safada. "Pronto, agora estamos quites" eu pensei. Mas não! A miseravelzinha soltou um berro e começou a chorar escandalosamente. Ai meu Deus, e agora? Veio a professora, a diretora e mais um monte de curiosos. 
- O que houve? - Perguntaram. 
A menorzinha não esperou um minuto sequer e respondeu toda chorosa: 
- Ela me deu um beliscão! 
Ah, que atrevida! 
- Ora, mas ela fez isso em mim primeiro. - Eu logo disse. 
Sabe o que a diretora da escola me respondeu? 
- Mas ela é bem menor que você, você não pode fazer isso! Vai ficar de castigo. 
E esse foi o dia que eu, aos cinco anos de idade, descobri a miserável injustiça que assola os seres humanos desde o começo da vida.   

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Bobagens guardadas no iphone

Desde as tragédias gregas, Roma, Cristo, os homens das cavernas, a época que quiser, desde lá atrás o drama humano sempre foi o mesmo. Concordo com Helio Schwartsman que diz que a moral é historicamente determinada. Então, o pensamento é o seguinte: o homem sempre foi deprimido, homossexual, transsexual, drogado, pervertido, inconstante, mal caráter, frágil, enfim, todas essas coisas que ele é hoje. A diferença é a moral, que depende de cada época. Somos prisioneiros de nosso tempo (essa frase também é do Helio). Se antes era normal escravizar, hoje não é mais. Se antes era um escândalo divorciar, hoje não é mais. Acho que os tempos atuais estão mais caretas em muita coisa - não se pode nem mais ser triste em paz. Existe agora esse insuportável do politicamente correto, fumar virou quase um crime. Claro, lógico que é muito mais fácil listar as coisas que ficaram mais liberais e por isso nem vou perder tempo. Eu só fiquei pensando que oras bolas, já se passou tanto tempo desde o tempo das cavernas, por que é que o homem não evoluiu? Por que não adaptamos as questões morais, as filosofias, as discussões, as leis, as normas que regem o mundo para que a gente se tornasse seres melhores? Por que é que a gente não deixou de ser inseguro, frágil, depressivo, mal caráter, assassino, todas as características ruins, por que diabos elas ainda não foram eliminadas? O homem é tão gênio a ponto de criar uma coisa tão, mas tão revolucionária quanto um Smartphone, mas para as questões tão primárias de comportamento e sentimento não existe genialidade no mundo que possa transformar todos os homens em Dalai Lamas.

domingo, 14 de setembro de 2014

O Ganso

Eu tinha nove anos, talvez menos. O trabalho era de ciências e a gente precisava formar dupla e escrever sobre algum animal. Eu me juntei a uma menina tímida, boazinha, quietinha chamada Fernanda. Por onde anda a Fernanda? Será que já se casou? Será que continua tímida e boazinha? Decidimos escrever sobre o ganso. Fomos espertas, porque a avó da Fernanda tinha um ganso em casa e por isso seria mais fácil desenhá-lo, falar sobre sua alimentação, etc. [Lembrando que naquela época as pesquisas eram feitas nas enormes enciclopédias que pesavam nas estantes das casas.] Fomos até a casa da avó da Fernanda e passamos o dia atrás do ganso. A parte triste é que descobrimos que o ganso é um animal bravo, que está sempre a postos para se defender, por isso não podíamos nem sonhar em chegar perto para sentir suas penas. Eu me lembro do meu desenho com setas indicando onde ficavam as penas, o bico, as patas. Mas me lembro mais ainda de ficar durante muito tempo da minha vida ressentida com os gansos por serem tão bravos.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

Conto (quase) infantil

Esse é o caso de uma raposa fêmea e um besouro macho. Dois bichos muito próximos que sempre que podiam ficavam juntos.
- Mas juntos como? - Você poderia perguntar.
Juntos, bem juntos, parecido com a mamãe e o papai quando voltam do supermercado. Eles ficavam rindo ou conversando ou só dizendo coisas sem sentido, juntos. Um dia a raposa, que lembre-se: era fêmea, e o besouro (macho) combinaram de fazer um passeio juntos no dia seguinte. A raposa então passou a se preparar. Nem esperou o dia seguinte e já foi logo escolher a roupa que usaria, o casaquinho que combinaria com a camisa e os sapatinhos de raposa. Preparou tudo e foi dormir. No dia seguinte a raposa ficou ansiosa, como sempre ficava quando o besouro anunciava uma visita. Ela tomou café cheia de bom-humor, fez a ginástica matinal e foi ajeitar os seus bigodes de raposa. Depois, ainda passou uma pitada extra de perfume e deu uma lustrada extra nos seus sapatinhos, só para deixá-los mais bonitos para o besouro. Ela então sentou-se na cadeira e passou a observar o relógio, preocupada.
- Ora, a essas horas o besouro já estaria aqui, esticando as asinhas e mexendo as patas lentamente como fazem os besouros. - Pensou a raposa.  
A raposa não entendia por que o besouro não vinha, mas decidiu tirar os sapatinhos que apertavam tanto as suas patas. Em seguida deicidiu tirar também o casaquinho já que ele era só um detalhe para combinar com a camisa cheia de florzinhas azuis. O tempo passou e a raposa achou que não teria mais importância se de repente seus bigodes não estivessem ajeitados e coçou o focinho com a pata direita. O bigode ficou mais bagunçado do que a hora do recreio na escola. Olha, para falar bem a verdade a raposa acabou se bagunçando toda. Ela enfim esticou as patinhas e deu um cochilo na cadeira. O besouro nunca apareceu. Mas também se tivesse aparecido talvez eu não estaria contando essa história, eu estaria mexendo nas asas do besouro com as minhas patas de raposa.

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Minhas pálpebras quase encobrem todo o meu rosto e eu mal enxergo a letra "e" no teclado.

Quem

E me pergunto também se um psicólogo vai me dizer quem sou eu. 
E depois que eu descobrir, o que eu faço com isso? 
"Sê dono do seu barco", ele me diria. 
E quem disse que eu quero ser dona de alguma coisa? 
Eu quero é sair andando.

Se é

Eu vivo em tempos estranhos. De comunicação ao extremo, mas muita muita muita falta de olho no olho. Muita pele e pouco papo. São tempos tristes. Isso, tristes, muito tristes e solitários. Como uma música do Chet Baker, exatamente assim, com aquela voz de tristeza pura. Tempos de querer aparecer, se mostrar, tempos de mostrar felicidade. Tempos de Rivotril, porque a tristeza não é bem-vinda. A tristeza é perigosa na verdade. Ela tem matado pessoas com cintos no pescoço. Pessoas engraçadas, pessoas que eram felizes. Mas hoje quem é feliz? Não sabemos nem direito o que é isso, confundimos com dinheiro. Confundimos com amor, com drogas, com espelho, com televisão. Eu não sei também, não olhem pra mim. Eu tanto não sei que às vezes chego a pensar que é Pink Floyd. Aquela música que ela grita, grita: The great gig in the sky. Eu tenho vontade de gritar como ela. Tenho vontade de me jogar dum penhasco pra ver como é - e depois sair andando. Ser feliz, que coisa imbecil. Ser vivo, ser o que se é, ser. Ser, coisa difícil. Como é que se é?

Interessante

Que diabos você queria dizer quando dizia que as músicas que eu ouvia eram óbvias? Algum deslocamento você me provocou e eu estou com mania dessa palavra: deslocamento. Acho que é o que eu busco na minha vida. Mas sabe, eu aprendi que quando a gente universaliza o que a gente escreve as pessoas acham mais interessante o que temos para escrever, mas eu nunca fui interessante. Eu sei disso. Quando alguém me diz o contrário eu não acredito, acho tão improvável.

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Ao meu filho

Filho,

Olá. Escrevo de um tempo muito antigo. Escrevo de 2014, quando eu ainda não tinha você. Escrevo para dizer que estou vivendo o estopim de uma Guerra Mundial. Ou uma Catástrofe Mundial, não sei bem. Quero te contar o que vejo, como é que eu vejo e o que eu sinto. Hoje o Jornal Nacional começou com uma matéria sobre a trégua na Faixa de Gaza. O Rodrigo Alvarez e o Jeremy Portnoy mostraram as pessoas andando no meio das ruínas, as crianças nos parques, as mães nas feiras. Porque em dias de guerra, só se vê tiros e bombas e homens do exército e homens mortos e crianças mortas e hospitais bombardeados. Mas não. Hoje foi um dia atípico, as crianças foram surgindo da fumaça como anjos. Os homens e mulheres sorriam um sorriso medroso. Todos podiam ver o sol e respirar o ar. Essa guerra foi horrorosa, foi triste, foi suja, mas acho que parou desta vez. Sabemos que haverá uma próxima, só espero que não seja muito em breve. A segunda matéria do JN de hoje foi sobre o vírus da Ebola que infectou duas pessoas da Europa e 1600 africanas. É gente à beça morrendo, sofrendo e se contaminando. É claro que só as duas pessoas da europa receberam um tratamento digno. Eu vi uma moça gritando ao repórter que o irmão ou marido dela não era europeu e não tinha dinheiro pra ir se tratar lá fora. "Não é justo!" - ela gritava. E não é mesmo, filho. Nunca vai ser. O Templo de Salomão, que eu espero que hoje seja só uma lembrança do passado, é um exemplo da injustiça tanta que é esse mundo, meu amor. Milhões e milhões de dinheiros que pessoas pobres deram para que se construísse esse exemplo de riqueza e ostentação. Esse templo imenso, frio de pedra. Esse templo triste, esse templo vazio, esse templo de ninguém. O templo que envergonharia Jesus, tão pobrezinho. Envergonharia o nosso São Francisco, envergonha a mim. Pelo menos essa Copa do Mundo, meu filho, foi memorável (acho que sou a última pessoa da minha geração a usar essa palavra: memorável). Foi lindo, foi maravilhoso, foi especial. Eu estava tão cética, com medo de que acabasse a luz, que acabasse a energia, que acabasse o Brasil. Estava pessimista com tudo, desde a infra-estrutura até os jogos. De repente veio a Copa (e que viesse de novo!). A Copa das Copas no Brasil. Buzinas, bandeiras, cervejas, cornetas, festas, gringos e mais gringos, manchetes sobre o Brasil no mundo todo. E as nossas meninas, e as nossas praias e as nossas festas e o Leonardo Dicaprio numa lancha e Jennifer Lopes deslumbrante e tanta coisa legal! Sabe, eu hoje agradeço. Ainda bem que veio a Copa pra alegrar nosso povo! Obrigada David Luis, você alegrou muito o seu povo! Ah, filho, vamos parar essa carta por aqui, porque aí acaba bem. Você acaba sorrindo e lembrando que eu vi de perto o 7X1.

terça-feira, 15 de julho de 2014

Segunda ou terça-feira

Sempre penso em câncer. Penso em gravidez, em solidão, em catástrofe e em milagre. Penso na loteria, na fama, na decadência e na morte. Eu sempre penso nessas coisas. Passo debaixo de um viaduto e imagino ele caindo sobre mim, passo perto de um hospital e imagino minha mãe carregando o netinho que saiu de mim. Esses pensamentos me mantém em outra camada: a camada do mistério, da possibilidade, da hipótese. Eu fico rindo e chorando de dor. Fico criando histórias que podem ou não acontecer - mas dentro da minha cabeça eu vivo um milhão de vidas ao longo de um dia normal de trabalho.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

1053 bloco A

Naquela sexta-feira eu tinha um casamento. Ou talvez uma festa chique, não sei exatamente. Quis fazer meu cabelo, minhas unhas, maquiagem. Pensei na roupa que eu iria usar, pensei se meus brincos novos combinariam. Fiquei pensando nisso e quando saí do cabeleireiro fui direto pra casa, direto, sem antes passar em lugar nenhum. Sem passar, por exemplo, no hospital. Sem passar em nenhum quarto onde meu pai estaria deitadinho esperando a minha visita. Sem passar pra ouvir como foi a cirurgia, pra ouvir que ele estava bem, que nem sentia dor. No dia seguinte me dei conta de coisas que ninguém precisa falar pra gente: coisas que a gente sente. Eu senti e doeu, doeu lá no fundo. Quis tatuar no meu braço 1053 bloco A. Escrevi de caneta no meu antebraço 1053 bloco A e sai atrás de um dia que já tinha passado, porque aquele já era o dia seguinte.

Tom crítico

Não gosto de ouvir há tantos anos que nós não conversamos direito. Conversamos sim, mas eu acho que você deve talvez não se dar conta. Porque mesmo pessoas experientes e vividas e tão (tão!) inteligentes como você às vezes não se dão conta de coisas assim. Sento ali no cantinho da cama e fico ali, horas. Conto minhas dúvidas, meus medos no trabalho, quando não estou feliz e quando estou. Você já me disse uma vez que conversar sobre livros não é abrir a alma. Engana-se e engana-se tanto. "Mas você achou que ele escreve num tom crítico? Porque, sabe, minha chefe fala muitas coisas num tom crítico e eu me sinto tão mal." Já faz tanto tempo que isso acontece. E alguns dias eu não quero falar sobre nada porque eu ainda estou aprendendo como é que se vive e às vezes eu erro tudo. Nesses dias eu quero ir direto pro quarto, pra cozinha, pro armário. E você vai se esquecendo que eu às vezes fico assim, porque eu sou assim mesmo. E você vai ficando triste, e vai se afastando mais e quando vejo, vários livros novos se acumularam no criado-mudo e eu não sei nada sobre eles, mas eu sempre sempre sempre quero saber tudo sobre eles.

Recolhida

Você tem razão: Etta James é doce. A dream that I can call my own... You smile, you smile, oh and then the spell was casted... Eu não entendi o contexto no qual ela tinha sido evocada, por isso fiquei muda. Agora que entendo, agora que entendi, estou recolhida aqui, acuada. Não sei o que dizer, o que fazer. Sei que algo se transformou dentro de mim, algo que era bom em algo que não sei, mas me parece ruim.

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Vigiada

Não soará falso a você se eu passar a escrever pensando em quem irá ler? Haverá uma faixa de preocupação tomando o espaço da minha alma. Não tente me fazer voltar a escrever, eu não vou mais. Perdeu a graça pensar que a minha alma está sendo vigiada.

terça-feira, 17 de junho de 2014

de tudo isso

Estou arrependida
de ter saído do útero da minha mãe
de ter dito o que eu disse
de ter ido aonde eu fui
de ser assim como eu sou
de não ser como eu poderia ser
e eu não vou mais parar de me arrepender
não hoje, não por enquanto
não aqui
não tem como.

siamo felice insieme




Ficção

Desde quando vc me falou que tudo que eu escrevia estava me expondo demais eu não parei de pensar nisso. Mas ninguém lê isso aqui e se lê, nunca vai saber quando é realidade e quando é ficção. Eu misturo tudo 

"And I am not frightened of dying
Any time will do, I don't mind
Why should I be frightened of dying?
There's no reason for it
You've gotta go sometime.
I never say I was frightened of dying"

domingo, 15 de junho de 2014

Eu penso em você

Penso em você nas horas mais estranhas: quando tenho raiva do trânsito, quando penso que serei demitida, quando não sou demitida e quando sou também. Penso em você quando cometo erros de português, quando penso por que existe o português e quando penso que eu poderia ter nascido no Japão. Eu penso demais em você. Questiono a sua existência no mundo, se você é mesmo desse mundo, se você existe em algum lugar ou lugar nenhum. Penso se você pensa em mim também, se você sabe que eu existo, se você já me viu passar. Eu penso muito se eu ando fazendo as coisas certas, do jeito certo, do jeito que talvez você se orgulhasse de mim. Eu penso se todo mundo tenta falar com você, se alguém consegue, se alguém já conseguiu. Eu penso se você tem mesmo vários nomes, se você tem nome, se alguém acertou o seu nome. Eu queria saber se ter um nome é mesmo importante, se existir é mesmo lindo como dizem. Se você se cansa de ser você, se você pensa em desistir como eu. Eu penso em desistir o tempo todo. Tudo que eu tenho eu penso em deixar pra lá e o que eu não tenho também. Eu não gosto quando alguém tenta comprovar que você está por aqui porque eu não consigo ver e nem sentir e fico me sentindo tão burra, tão insensível e tão sozinha. Foi você mesmo que fez tudo? E por que não desfez até agora? Você está esperando a gente desfazer tudo sozinhos? É por preguiça, raiva, decepção, desilusão? Eu tenho tantas perguntas, eu e todo mundo. Mas eu sei que você não responde nada. Não sei se por covardia ou por não existir mesmo: como pode responder se não existe? O fato é que eu pensei em você hoje e eu quis pegar a sua mão enquanto ouvia a minha mãe tocar piano. Ela nunca toca piano, mas hoje ela tocou.

Existir

Toda vez que eu digo algo,
eu queria dizer mais
toda vez que eu me calo,
eu grito por dentro.
Mas é assim mesmo
a gente existe com tantas dúvidas
e a gente deixa passar coisas
sem saber a importância delas.
Hoje pode não ser nada,
mas amanhã pode provocar um tornado
em algum canto do mundo
ou dentro da gente.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

As unhas

Quando machuco os meus dedos de tanto arrancar as unhas ou as peles em volta delas eu penso no que pode estar errado. Pode ser muita coisa, mas eu aumento o som do rádio e falo mais alto do que deveria falar - para não pensar no que pode ser. Me dá ânsia de vômito pensar na quantidade de coisas que me incomodam aqui e agora. Mas o que eu posso fazer?

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Menino Jesus

Eu acordei nesse mundo sentindo cheiro de pé de manga, cheiro de passarinho voando, ouvindo passos, ouvindo conversas de longe. Ficava observando do meu bercinho, sem entender nada, mas entendendo tudo do meu jeito. Quando cresci e tive a percepção de estar aqui, comecei a olhar coisas como o cabelo fininho da minha vó e os botões colados no baú velho da chácara. Eu lia poesia de Vinícius muito antes de saber quem era Vinícius. Eram coisas bonitas, uma menina com uma flor, a menina que viu o filho ser engolido pelo mar. Eu não entendo matemática e eu não consigo escrever coisas chatas e burocráticas como política, greve do metrô ou o perigo da dengue. Eu só consigo ouvir músicas e achá-las lindas. Só consigo passar horas lendo textos e lembrando de coisas que pessoas me falaram. Passo as minhas horas escassas tentando fazer parte de alguma coisa. Eu não consigo ser jornalista, publicitária ou trabalhar num escritório. Eu não consigo ter um pensamento linear. Ultimamente eu não tenho mais conseguido almoçar com colegas de trabalho e comentar como as coisas estão difíceis, se vai ou não ter Copa. Almoço com a Vivi, que é como eu. No meio do almoço eu leio Fernando Pessoa com ela. Ela não estranha. A gente fala sobre o texto e ela logo lembra de outro texto tão bom quanto. A gente fala besteira sobre o quanto somos diferentes e parecidas. Ela tem mania com signos, acha que o signo explica tudo. Eu acho graça. Acho que somos uma ilha no meio de pessoas que parecem algas presas no fundo do mar. Nós duas somos o mar, eu e ela. Sinto tanto alívio quando encontro a Vivi, encantada com as coisas, tão resolvida na vida que leva: ela toma um chá e acende um incenso. O menino Jesus do Pessoa veio pra mim não na forma de um menino travesso, mas na forma da Vivi.

Sequestro

Ontem eu sonhei que tinha sido sequestrada. A polícia chegou e no lugar de prender os meus algozes, me prendeu - num presídio de segurança máxima. Eu ficava isolada, com medo, desesperada, me sentindo sozinha, longe. Eu recebia notícias de que a polícia estava atrás dos criminosos, mas que enquanto não os encontrasse eu ficaria presa. Acordei num impulso com vontade de chorar. Freud, pelo amor de deus me explica. Eu estou sofrendo, não estou?

terça-feira, 27 de maio de 2014

Seremos nós

Tenho medo da falta de água, da falta de energia e da falta de um partido para votar. Tenho medo também de ficar sem emprego, de me explorarem no próximo emprego, de nunca mais me empregarem. Tenho medo dos assaltos no meu bairro, da greve que virá amanhã, do silêncio e omissão dos políticos. Porque está todo mundo normal, ninguém tem medo e eu me sinto sozinha. Ninguém percebe que a sociedade está se revoltando, que somos todos atores da peça Marat-Sade, que desse jeito não dá mais pra ficar? O povo viu, o povo sabe, não adianta mais enganar. Brecht se revira no túmulo tentando entender se no fundo haverá mesmo uma revolução, porque o mundo está silencioso diante dos gritos das massas. Como se quem não visse fosse o foco. E como eles não viram nada mesmo, eles caem na mentira. E o mundo começa a morrer ao poucos (ou só o Brasil), mas  a verdade é que não está dando mais vontade de morar aqui, e quando isso acontecer com todos nós, seremos nós mesmos os haitianos.

domingo, 25 de maio de 2014

9.855 dias

Depois de tudo que eu passei
continuo igual 
Desde que nasci, um feto perdido 
não mudei nada
Sou assim, estou assim
e assim sempre fui
Será que todo mundo sabe 
que acabei de chegar?

Antes

Antes eu preciso descansar. Minha cabeça dói e eu acho um pouco que estou pagando por alguns pecados. Espera um pouco, você já perdeu a sua chance de me chamar.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Dezenove de maio de quatorze

- O que você acha que acontece depois que a gente morre?
- Eu acho que a gente faz "puff" e some.
- Só isso? Mais nada? E acaba?
- Sim, "puff."
- Que sem graça.
- Sem graça, mas bem mais fácil.

Porque não é

Não gosto de escrever pra você,
porque é o que eu sei fazer
e eu sei que vou ficar sem resposta
porque não é o que você gosta de fazer.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Eu fujo

Tenho medo de ficar sozinha, tanto medo.
E é desse medo mesmo que eu fujo.
Fujo tão depressa que acabo ficando sozinha.

Confusion

Eu já não quero mais morrer cinco minutos depois de ter morrido, já não sei mais o que fazer com você cinco minutos depois de termos nos amado. E eu quero partir hoje, agora, cadê minhas malas, onde estão minhas coisas? Não adianta tentar me segurar, eu não amo mais você. Mas por que você está indo embora? Não se vá, fique. Por favor fique. Não sei ficar sem você não sei, te juro. Estou mansinha e é assim que eu sou. Me perdoe se às vezes me exalto. Adeus, sou eu que estou indo embora. Estou moída demais, não posso mais ficar aqui. Adeus.

terça-feira, 13 de maio de 2014

Antes da hora

Eis que ir embora é uma desgraça.
Não se pode nem ir embora sem magoar todo mundo que fica.
Fica todo mundo querendo entender.
Mas entender o quê, minha gente? Deu vontade de ir.
Não se pode nem sair de fininho pela porta dos fundos.
Não adianta não fazer barulho e nem se fazer de bobo.
Mas sabe, acho que tem uma lógica.
Se desse pra sumir assim sem deixar rastros,
um dia ou outro, todo mundo ia embora antes da hora de ir.
Só ia ficar no mundo tristeza e espaço vazio.


Recolho as minhas coisas

Há uma ingratidão.
Não sei se é minha ou da vida, mas alguém está sendo ingrato.
Já que a vida é muito maior do que eu,
recolho as minhas coisas no chão e vou saindo de fininho
(mas eu não peço perdão).

sexta-feira, 9 de maio de 2014

Me desculpe, noite

Me desculpe, noite, se eu a insultei sujando o seu silêncio com o barulho das teclas.

quinta-feira, 8 de maio de 2014

Ainda não

E pra que esperar, você me pergunta. 
Eu não sei. E não sei mesmo.  
Mas eu espero, porque um dia eu ainda hei de saber.

The great gig

Ninguém falou nada, porque todo mundo ficou com medo de falar.
E então ela entrou na sala puxou o ar pra dentro, inalando profundamente, e soltou-o gritando até o fim.

sexta-feira, 2 de maio de 2014

No amor, estranhamento

Os olhos amarelados
o cabelo macio
a pinta do lado esquerdo da boca
e a boca.

O abraço que cabe de forma exata
no meu braço
o beijo que tem o gosto
que eu gosto
a mão que sempre encontra
a minha.

O horóscopo dizia:
“no amor, estranhamento.”
No meu poema eu digo:
 “no amor, exatidão.”

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O adeus da mamãe

Minha mãe não conseguiu falar. Como a rosa do Pequeno Príncipe que só conseguia tossir, mamãe colocou os óculos escuros e observou. De quando em quando ela chorava, mas o papel dela ali não era chorar. Também não era conversar com ninguém. Embora ela tenha uma fala calma, doce, que pode levantar qualquer um, mamãe não estava ali para isso. O papel dela era outro, poucas pessoas sabiam. Ela estava ali para garantir que a travessia do Zé fosse tranquila, que ele tivesse algum anjinho para lhe dar a mão, para que ele chegasse sem medo. Mamãe passou boa parte do tempo fingindo que estava ali, mas ela não estava, ela estava pedindo um anjinho assim e assado para ele. Um anjinho que lhe empreste um avião para ele consertar um pouquinho antes de subir, porque ele gosta muito de fazer isso, ela me contou hoje. Pouca gente sabe disso, mas o Zé saiu de fininho, de mãos dadas com o anjinho que mamãe encomendou.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Uma visita

Um aviso interrompeu a noite
e a noite não parou para rezar
nem esperou ninguém recuperar o fôlego. 
Veio a escuridão da noite
e ninguém mais falou nada.
O telefone tocou umas três ou quatro vezes
mas não tinha ninguém do outro lado da linha
- ou quase ninguém,
ou alguém sem chão, 
ou alguém com muita dor.
Essa noite todo mundo falou mais baixo, 
todo mundo ficou tentando entender:
por quê? Por quê, meu Deus?
Mas Deus nunca responde,
e hoje Deus está muito ocupado, 
Ele tem uma visita especial.

segunda-feira, 21 de abril de 2014

de 1 a 10

1. sim
2. é bonito começar qualquer coisa que seja com um sim
3. mas eu não quero ver nada bonito, me basta fingir
4. aqui dentro sou eu que mando
5. e eu vou fugir
6. é bonito achar que se pode fugir
7. mas a gente sempre fica
8. porque é obrigado a ficar
9. isso é tão triste
10. fim

suspiro

Meu último suspiro é esse.
Mas o que é um suspiro, você se perguntaria.
Não sei, só posso supor:
uma manifestação qualquer de insatisfação,
ou de satisfação plena.
Um barulho qualquer, que eu não faço mais.
Nem importa mais o que é um suspiro,
é uma das coisas que você vai aprender com alguém,
como eu aprendi com você.


Suor

Caiu uma gota de suor nessa carta, mas você vai achar que é uma lágrima. Eu deixo que você pense isso, porque talvez seja bonito pra você pensar que eu sofro também. Eu morro de calor, isso sim.

Quiet

Hoje eu não vou ser eu,
porque é muito mais fácil não ser
em tempos de dor,
de arder o peito, 
de sangrar as unhas de tanto roer.
É mais fácil sair
e disfarçar caminhando. 
Lá fora, com tanta gente,
os barulhos se misturam
com o meu silêncio.

domingo, 13 de abril de 2014

O livro

Eu queria mesmo era escrever. Poder escrever um livro, contar uma história, arrancar todas essas frases desconexas do meu peito e conectá-las em vários capítulos. Eu queria isso, mas eu não consigo. As frases não se conectam, as palavras querem ficar sozinhas e o tempo. Ah, o tempo. Sempre o tempo. O livro todo podia ser sobre ele - a falta dele. Falta tempo para me espreguiçar melhor quando acordo, tempo para lavar melhor o meu rosto, tomar mais uma xícara de café, passar mais uma camada de esmalte nas unhas, escrever um livro. Ele nunca sobra, e eu sei que é assim com todo mundo. O meu livro podia chamar "A falta dele" e iam faltar várias páginas por falta de tempo.

terça-feira, 8 de abril de 2014

Ditado popular

De galinha em galinha, o bico enche o grão.

Você não está mais aqui

Eu penso em você às vezes.
Às vezes me dá até um pouco de medo, parece meio sombrio.
Você não está mais aqui para me manipular assim.
Você era tímido demais para me manipular.
Às vezes você se entregava - e eu nem percebia.
Essa foi a mágica.

Sede ao pote aquariana

Vivi, eu detesto chocolate meio amargo. Se você soubesse disso você daria risada porque eu acabei de terminar um saco de chocolate meio amargo.

1,2,3.

Ouvi a sua música e criei uma letra. A gente chegou até a pensar num contrato: eu faço a letra e você o som. Mas falhou. Falhou pra burro: eu tava lá e você aqui. Eu não podia cantar pra você de longe. Então foi criando-se a distância e a sede e então tudo acabou.

Eu e eu mesma

Eu já deixei de ter medo de ser mim, mas às vezes ainda me pego nervosa quando me vejo sozinha comigo. Ser eu às vezes me magoa, às vezes me amedronta, às vezes me acalma: sou só eu. Mas acontece que eu costumo mais ficar nervosa comigo. Chego a esquecer quem eu sou. Sabe, às vezes eu penso: ainda bem que eu tenho a mim.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Longe

Às vezes eu penso que se eu não tivesse medo
poderia governar alguns países
poderia ser rainha ou uma atriz de hollywood
se eu não tivesse medo
acho que eu seria Napoleão
e por que não?
Achar que tudo é possível, que dá
mas não dá - e eu tenho medo
mal saio do lugar
só vou daqui para lá
E se eu não tivesse medo, imagine?
Não estaria aqui, não.
Tem tanto lugar bom:
agora eu estaria longe, longe.

sábado, 22 de março de 2014

Sem nada

Queria fazer uma poesia,
mas estou ilhada.
Não consigo juntar as palavras
e aqui não há sinal
nem para uma poesia urgente
como essa.
Queria fazer uma poesia,
mas estou perdida.
Não encontro nada
- nem palavras e nem espaço.
Não há tempo para poesia
nesse meio
nesse fim de mundo
nesse espaço
sem nada.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Pra onde?

Para onde foi o meu peito 
com todos os meus sentimentos dentro? 
Talvez eu saiba, mas não posso falar, 
acho que faria a minha mãe chorar. 
O meu peito é tão brincalhão, 
poderia ter pregado uma peça.
Mas acho que não,
ele tinha um pouco de pressa.
Só sei que aqui ele não ficou,
só sei que as coisas que ele me levou,
são tudo que eu sou.

Tem o tamanho

Acho tão injusto 
cada minuto desses 
com dor no peito.
Como se a vida fosse terminar amanhã.
Mas ela não acaba nunca - e a gente sabe,
mas fica chorando como se fosse rápida, curta, única.
É nada.
A vida tem o tamanho 
de uma vida inteira.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Sobre a seca (hai kai)

Cai a chuva
em outro lugar
que não aqui.
Aqui fica a seca
que não cai
só fica.

Nesse planeta tão grande

Eu tenho o meu espaço em algum lugar de algum canto
Nem sei onde fica o lugar que eu fico 
Nesse planeta tão grande
Mas quem falou que eu me preocupo?
Algum lugar eu ocupo. 

Cazuza

Eu vou dar o meu desprezo
Pra você que me ensinou 
Que a tristeza é uma maneira
Da gente se salvar depois
Dói dentro de mim, um filho que não nasceu. E esse aqui nem vai nascer - porque é imaginação e uma coisa eu aprendi: a realidade é só o que eu posso tocar. Como essa coisa de sonho, essa coisa mesquinha que a gente faz só para satisfazer o nosso peito, que quer sempre chamar a nossa atenção.

Cruz + Espada

É tanta tristeza que eu vejo 
que eu já quase nem vejo mais.
É tanta saudade que eu sinto,
que eu só quero paz.
Mais nada, nada, nada.
O que mais eu poderia querer,
se estou entre a cruz e a espada?


Onde estamos

Um dia eu vou acordar doente
e vou achar que o mundo é que acabou
quando o que acabou foi o meu mundo,
a minha conexão com o mundo.
Eu vou sair correndo, achando que estou fugindo,
quando na fuga tudo fica: só o lugar que muda.
Mas o que é o lugar senão tudo que a gente tem na cabeça
- menos o lugar onde estamos.

Nadar

Faltam poucos dias para a China -
uma viagem até um outro continente -
mas em que continente afinal nós estamos?
Estamos juntos, aqui nesse planeta?
Estamos aqui, eu e você, em algum lugar.
Mas que lugar é esse? É distante esse lugar
- de quê?
E quando eu penso que tem muita terra ainda
- mas tem muito mais mar -
Eu tenho medo de me perder na água,
é tanta água nesse mar que tem na terra.
Muita água e eu não sei nadar.

Desloca

Tudo que provoca um pequeno deslocamento dentro da nossa cabeça, do nosso peito, dentro da gente - é para esses deslocamentos que a gente vive.

Trem para as estrelas

Essa música nasceu no mesmo ano que eu nasci: 
nascemos juntas, eu e a música. 
Mas eu não trouxe nenhum trem para as estrelas. 
Trouxe talvez o túnel, mas não sei se bom: 
sem luz no fim.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

De tão nada

Ai como me dói não ser nada,
todo dia não ser nada dói -
dói porque nada é tão pouco,
e nada é ainda menos.
Eu não sou nada, mas todo dia quero
ser mais um pouco.
E de pouco em pouco talvez eu possa ser
um pouco mais do que nada.
- mas, sabe, se um dia eu algo for,
é capaz que eu nem perceba.

Na cama

Quando você me perguntou,
eu tinha várias coisas pra dizer,
mas eu nunca sei como é que você vai ouvir.
Se eu disser o que eu sinto,
o que é que você pode dizer?
Tenho medo sim, medo sim, receio.
Tenho medo, medo, medo.
Mas e daí? Você nem repara se eu virar e dormir.
E fica tudo por isso mesmo.
E eu esqueço que tenho medo.
Medo, tenho medo sim, receio.
Medo, medo. medo.
E vamos dormir.

dizer sim

Não custa nada dizer 
um alô 
Só pra dizer se tá tudo em paz, tudo beleza
Me leva pra um restaurante
bacana, bonito
Me leva pra passear
num lugar tão delicado
que de repente eu posso gostar
e gostar, e gostar
e um dia eu posso dizer sim
e ficar.

domingo, 9 de fevereiro de 2014

Yusk Imai

He feels it.

Um recado da vida

Diga a ela que se não for agora não há outra hora.
Diga a ela isso e que eu não posso esperar.
Pra falar a verdade, só aqui entre nós,
- e que fique em segredo -
eu acho que já não dá mais tempo.

Saramago

Pode se morrer de pessimismo?
Pode se morrer de achar que não vai dar certo, que não vai melhorar?
Porque se puder é bem possível que Saramago tenha morrido disso.

Brilho eterno de uma mente sem lembranças

Eu acho que esse filme é sobre como não importa quantas vezes a gente esqueça, quantas vidas a gente viva, o quanto a gente apague o que viveu. Não importa quantas vezes. Vai vir um erro, um arrependimento, uma vontade de fugir - ou de apagar absolutamente tudo. Sempre vai vir, apagar não podemos, mas mesmo se pudéssemos, nada ia adiantar. Nada, meu amor, nada.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

E a dor também

Grande mesmo é essa vontade de fugir, sempre
mas fugir não leva a nada
porque os pensamentos vão junto
- e a dor também.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Quando o sol desce

Quando chega o verão, meu pai parece que derrete no chão.
Papai não aguenta o calor, ele fica estranho, sabe? É assustador.
Quando sai o sol papai parece um lobisomem
mas no caso dele é às avessas: era lobo e vira homem.
Papai, me diz o que acontece
quando faz calor e o sol desce?

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Meu amor,

Hoje eu resolvi finalmente escrever pra você, diretamente pra você, assumidamente pra você. Já escrevi outras vezes, mas dessa vez é diferente: não tem nenhuma ocasião especial. É que eu fui extremamente grossa com você e não consigo parar de pensar nisso. Eu demorei pra perceber o quanto eu tinha sido rude e nem cheguei a pedir desculpas, só fiquei expondo o meu lado. Assim que eu me dei conta eu pedi desculpas, mas você já tinha me desculpado - e tudo ficou por aquilo mesmo. Mas não! Giu, acho que você já leu a quantidade de textos que escrevi para outras pessoas. Você viu que conheci muita gente, tive muitos amores e desamores. Mas já faz quase quatro anos que é só você que faz parte da minha vida, da minha história, do meu coração. Desde quando a gente se conheceu você tem sido paciente com os meus deslizes, as minhas falhas, as minhas coisas meio loucas. Você sempre me dá a mão, sempre tenta me entender, sempre fica ao meu lado. Eu fico até espantada com a sua capacidade de esperar a tormenta passar, quando há uma tormenta, a capacidade de sempre me agradar, mesmo quando nada parece me agradar mais. Já pensei em desistir de nós dois, já me irritei, já quis ir embora. Mas eu volto, eu volto sempre pra você. Você, sempre tão paciente, parece já saber da minha volta e fica ali sorrindo, me vendo rodar como uma barata tonta. Olha, eu nunca deveria ter sido grossa daquele jeito com você, porque você é a pessoa mais doce, mais carinhosa e mais companheira que eu conheci. Você não merece nenhuma grosseria minha, jamais. Eu sou tão grata por tudo que você me ensinou e continua me ensinando, eu só tenho o que te agradecer, sempre. Eu nunca amei ninguém como eu amo você e eu sei que eu parei por aqui. É com você que eu quero seguir em frente: atrás dos meus sonhos, da minha felicidade, atrás do resto de vida que eu tenho pela frente. Desculpa, tá?

Dia-adia

O cotidiano me parece uma interminável sucessão de pequenos assuntos que contrariam o grande objetivo.

quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Só aquela

Eu nunca guardei o nome dele
e acho que ele nunca guardou o meu rosto
mas ele deve lembrar da minha voz
eu gritava, eu ria, eu falava bem alto
misturando as palavras e as linguas
a dele e a minha
Ele respondia falando baixinho
que tava todo mundo olhando
Quem se importa, eu gritava
QUEM SE IMPORTA
A gente dançou a noite toda
ele suava e os meus pés urravam de dor
mas a gente não parou de pular
pensando que dançava.
Eu não sabia, mas ele não tinha mais ninguém
eu nem imaginava, mas era só aquela noite
e mais nunca mais.

Velhaca

Em um minuto eu consigo dar um beijo, roer a unha, chorar ou dar cambalhota. Em dois minutos eu consigo um pouco mais: comer um lanche, pular a escada, escrever um texto, cantar uma música. Eu uso o meu tempo com coisas inúteis pra ver se ele passa mais devagar - o útil é muito rápido e faz a gente envelhecer. Eu não quero ficar velha. Quero ficar torta, cegueta, desbocada, mas velha não. Meus netinhos perguntarão quantos anos eu tenho: vinte e seis, eu direi. E talvez até pareça, porque o tempo não passou. Você viu passar? Eu também não, ninguém viu. Quem disse que ele passou?
Andei distante, andei triste e andei bastante
só que eu voltei pra cá, o lugar que dizem ser meu.
Qual é esse lugar que eu ainda não vi:
será aqui, será um lugar, será você?

Talvez passe

Quando eu pus o dedo na ferida,
o dedo doeu mais do que a ferida
mas eu não chorei, fui corajosa
porque é isso que é ser corajosa:
não chorar.]
Eu tinha um segredo pra contar pra alguém,
só que não tinha pra quem contar
e o segredo se desfez
- na água ou no vento, tanto faz.
Guardei pra mim o que eu tinha pra mostrar,
porque talvez não fosse interessante
(e tem tanta coisa interessante nesse mundo,
pra que desperdiçar?)
O que passa mais rápido: o amor, o tempo ou a idade?
O amor não passa não, alguns dirão.
Não sei, talvez passe,
talvez não.



Astronauta

Me sinto um astronauta no meu corpo. Não conheço direito nem o meu nariz, principalmente o meu nariz. As minhas mãos eu até conheço porque rôo todas as minhas unhas. Os olhos, conheço só de vista. Minhas pernas às vezes surgem enquanto corro, mas só assim que eu as vejo. É uma pena que eu me conheça tão pouco depois de tanto tempo. Mal sei do que eu gosto, só sei do que eu corro. E eu corro de mim mesma. 

Ralo

Quando eu chego em casa e quero tudo
eu me esqueço o que é que eu queria,
e não quero mais nada.
É assim que funciona:
não amar mais, cinco minutos depois de ter amado.
Pra onde foi todo aquele amor?
Pra onde foi o que eu queria?
Devem estar lá na piscina,
quando eu mergulhei devo ter deixado lá embaixo.
Se tiver ralo, o ralo levou o meu amor.

Final

Um ponto final
final
final
fim.

Podia ser vírgula,
mas acabou
(e ponto).

Dois pontos:
foi um final.


terça-feira, 21 de janeiro de 2014

O seu nome

Qual seria o seu nome,
se não fosse o que eu chamo?
Mesmo que às vezes eu confunda,
esse seu nome, qual seria,
se eu deixasse de chamar?

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Quadrilha

Não sei até onde a gente pode chegar com esse negócio de amor, mas eu acho que parte disso deve ter algum fundamento. Por que a gente fica com vontade de algumas pessoas e rejeita outras? É um jeito que Deus viu de segurar as pessoas? Pura taxa de natalidade? E daí, às vezes, uma pessoa não se interessa por outra que deveria ser seu par porque ela está distraída com outra pessoa. É uma loucura, Deus.

O que foi amor?

Por quê, de repente, você me perguntou:
-O que foi amor?
Quando você sabia que nada amor,
não havia nada que pudesse ser?

Meu amor

Você exige esforço nenhum.
você exige paz, você exige silêncio
você chegou em silêncio, como se não fosse nada
mas exige silêncio, exige paz, exige estar vivo.

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

O tempo todo

Quando você de repente vai embora eu me esqueço como é que se fica sozinho.

Só não gosto

Eu não gosto de me ver no espelho
nunca, nunca mesmo.
Não por causa do meu rosto,
eu até gosto do meu rosto,
não é isso.
Eu não gosto de me ver no espelho,
com essa cara de sozinha, de quietinha,
de poucos sorrisos desses
que vem do peito.

Nem mais

Não gosto quando você espera de mim demais,
demais de mim.
Eu não posso te dar muito, e muito menos pouco.
Me deixe assim, que esse é o melhor de mim.
Nem mais,
Nem menos,
Nem pouco e muito menos
Nem muito.

Dancinha

Preciso sonhar coisas de gigante, de acordo com o que sou
mas meu bem eu lhe digo
Seu tamanho nada tem a ver com o seu passado
e também eu lhe falo
os sonhos não são assim tão fáceis e meu bem,
acorde.

Dias

Tem dias que tudo parece rascunho porque tudo parece tão fraco, que vai terminando, terminando e aca-bou.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Sonho

A sua mãe tocava pra você essa música no piano e eu ouço essa música como se eu estivesse ouvindo a vovó. Eu vejo a vovó sentadinha no piano, pequenininha como eu a imagino. Ela me vê descendo a escada, sorri e continua tocando. Não sei qual é o número desse noturno, mas é um dos mais lindos do Chopin. Tenho vontade de chorar olhando a vovó tocar. Eu me sento do lado dela e espero ela terminar a música pra abraçá-la, temos tanta coisa pra falar uma com a outra. Tem tanta coisa que eu quero saber do papai, coisas que eu quero que ela me conte como foi a versão dela. Tem tanta coisa! Será que ela continua sarcástica? Será que ela vai me fazer rir? Imagino que ela vai ficar falando do Pradão entre uma piada e outra. Quero tanto saber o que ela acha de mim! Somos parecidas, vovó? O papai vai dar gargalhadas quando eu contar pra ele que encontrei a vovó tocando piano! Mas aí a música acaba. A vovó levanta, beija a minha testa e vai embora, toda feliz.

Mesmo lugar

Você sabe que todas as coisas que a gente faz na vida, todas e absolutamente todas, serão esquecidas por todas as pessoas que a gente conhece na vida, porque todas elas, como nós, estão preocupadas com as coisas que elas fazem na vida. E no final da vida, vamos todos pro mesmo lugar.

gymnopedie 3

O problema de eu me sentir sozinha
não é a tristeza que gera
não é eu estar desprotegida
não é a falta de alguém
é talvez
a possibilidade
de eu, de repente,
estar mesmo sozinha.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Manchete

A notícia sobre futebol está ao lado da notícia sobre os duzentos mil desabrigados no Rio por causa da chuva. A única diferença é que a notícia de futebol tem uma foto e está em destaque.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Triste assim

A minha tristeza é suave, quase doce. Eu sorrio tão levemente, parece verdade. Eu entro e saio sem ninguém saber que sou triste. Ninguém. Eu passo entre as pernas, entre as mesas e entre os pensamentos de alguém tão rápido que é como se eu nunca tivesse passado. Eu não tenho passado muito. Também não tenho muito passado. O presente quando demais quase esconde o passado. Mas também, quem mandou estar aqui. Quem mandou passar por aqui a essa hora. Não adianta reclamar, chorar para os santos, não há nada que te faça outra. Essa aqui é você, triste assim.
]
Eu não sei fazer de outro jeito se não o errado. 
Eu não sei fazer de outro jeito se não qualquer jeito.
Eu não sei fazer de jeito nenhum.
[

Preciso escrever

Preciso escrever um pouco
se não o que será de mim quando me descobrirem
e todos ficarem sabendo que eu não sei fazer mais nada
e eu for desmascarada?
Eu preciso escrever
para que saia, quem sabe, uma poesia
e então eu a vendo por milhões de dólares
e fico rica
e nunca mais preciso fingir mais nada.

Roteiro


  1. um labirinto
  2. não, um labirinto não, um mar
  3. cheio de ondas silenciosas
  4. e vazio
  5. nenhum barco a vista
  6. ninguém
  7. de repente um peixe surge na superfície
  8. e volta pra dentro do mar.

Se eu chego

A minha tristeza é ver que eu corro, corro, corro, e a linha de chegada está em qualquer outro lugar.
A minha tristeza é ver que eu não saí daqui. E os anos passaram, eu consigo ver nas pequenas manchas,  nas feridas, nas mãos. Os anos passaram que eu sei. E eu sei que está todo mundo querendo esconder isso de mim. A mulher que me atende no posto de conveniência, o cara que abastece o meu carro, a bruxa que disse que eu não sabia escrever. Estão todos fingindo que eu não estou atrasada. Estão todos me escondendo uns anos. Só quero saber se eu chego, se eu consigo chegar ao lugar que está separado para mim.

Roteiro

Um roteiro, ele me pediu um roteiro.
Eu não sei, mas sinto que o que eu quero dizer é justamente o que vai
fora do roteiro
junto com o Leminsky ou não sei, com o Drummond
aquele Drummond que eu não entendia quando era pequena
mas hoje eu entendo,
infelizmente eu entendo.

que gosto tem

Qual será o gosto de realizar um sonho? Qual será o rosto de quem realizou um sonho? Gente que realiza um sonho fica diferente, não sei diferente como. É, pode ser bobagem minha.

domingo, 24 de novembro de 2013

sonho

Meu pai veio me dizer que o meu sonho era um pouco caro e um pouco difícil, não tira o foco do trabalho, filha. Como se eu não soubesse já. Como se eu não tivesse arrastado esse sonho na garganta por vinte e seis anos e cinco meses. Mas tudo bem, é só mais uma montanha que eu vou precisar escalar, depois do meu trabalho me obrigar a adiar e adiar mais o meu sonho. Porque é assim mesmo. Todo sonho que se preza tem que ser difícil, impossível e quase sempre a gente desiste. Eu penso todo dia em desistir, porque eu não sou forte pra aguentar um sonho ridículo desse nas costas, mas eu sempre quero tentar mais um pouquinho, mais umas semanas, mais uns meses. Pode ser até que eu acabe pensando em não desistir, pelo menos um dia. Esse dia vai ser bom. No dia seguinte a vida real volta a me atormentar, e o sonho volta a ser só sonho.

O barbudo do trabalho

Tenho histórias secretas pra contar pra ninguém.
As histórias que eu imagino olhando para as pessoas.
Olho pra esse cara do trabalho, imagino ele tocando algum instrumento genial na janela de casa. Aquela cobertura que quase dá no céu, um céu meio solitário, mas cheio de estrelas. E imagino ele cozinhando ao som de um jazz que eu não conheço. Imagino ele não fazendo a barba e deixando os óculos em cima da pia. Depois ele vê o jornal na televisão, o jornal da meia-noite. Ele analisa tudo com os olhos semi-fechados e dorme. Ele tem tanta coisa pra contar pra alguém.

onde

Já são sete horas da noite e eu acabei de perder o dia não sei onde.

Outros séculos

Estava estudando romantismo alemão, espanhol, português. Eles se matam, elas morrem de amor, elas esperam, eles morrem na guerra, elas ficam grávidas de outros, eles se entregam ao inimigo, elas também. Dor, dor, dor. Tudo tão trágico. Exatamente como na vida real.

your heart

Sometimes I feel like your heart must be upside down.
Or is it mine?

sábado, 23 de novembro de 2013

Coisas invisíveis

Acho que talvez esteja na hora de ficar um pouco longe disso tudo, tá na hora de ir para casa, para o acampamento, para a chácara da vovó. Preciso ver a terra, me ver de longe, preciso ver melhor. Quando se fica muito tempo longe de casa, do que se acredita, o caminho de volta fica quase invisível.

Teresa

Quem põe os pingos nos is,
a vírgula para dar uma pausa,
o ponto para finalizar a questão.
Quem traz o sol de manhã
- mas isso é um clichê, ela diria.
Quando um avião cai, 
- e todos os dias caem aviões -
ela respira e faz o mundo saber, tranquilamente.
Ela foge do que chama de mundo cão,
porque na hora do almoço ninguém merece sofrer.
Saias longas, botas, pulseiras
e um jeito doce, doce.
Teresa, a sua existência torna a vida na terra mais suave, 
todos os dias.
Porque você e os seus cachos
parecem um daqueles milagres disfarçados de gente.

sábado, 12 de outubro de 2013

Peso

Há entre nós um peso
- eu achava que era só o peso do ar,
mas o ar não é tão pesado, e esse peso parece um piano
(um piano em silêncio, como o que eu tenho em casa).
Depois achei que era o peso de uma dor
uma dor que eu não conheço, que dói como uma pancada.
Mas não é: nem pancada, nem dor, nem piano e nem ar. 
Algo me diz que esse peso 
É o peso da morte. 

domingo, 6 de outubro de 2013

Peito morto

Eu queria estar morto pra ver como seria. Queria andar morto pelos cantos, pela minha casa, lá no meu trabalho. Um morto fedorento, com cheiro de morte. Um morto assustador. Eu queria saber como é ser morto, como é esse outro lado, sem vida, sem essa dor no peito, maldita dor no peito, parece que meu peito morreu.

[entrelinhas]

[não] eu [não]
[não] te [não]
[não] amo [não]

Eu em silêncio

Eu não entendo como você consegue sobreviver em tanto silêncio.
Você diz que não tem nada a dizer, mas também não quer ouvir nada.
Vou parando de dizer aos poucos, parando, parando, par [silêncio]

domingo, 29 de setembro de 2013

Não foi naquela hora

Ela se apoiou na parede e abriu o zíper de uma das botas calmamente enquanto ouvia o piano. Ele tocava sem nenhum compromisso, nenhuma música em especial. Ela ia pensando nos últimos dias e tinha vontade de dizer alguma coisa, não estava muito segura nem muito convencida de nada. Assim que tirou a outra bota foi sentar no sofá, bem ao lado do piano. Pensava no que queria dizer, no que precisava saber, no que tinha medo. Pensava nele, nos dois, naquele frio todo que estava fazendo - aqui e lá. Ele terminou de tocar, virou-se para ela e falou qualquer coisa sobre a música. É agora, ela pensou mas não disse nada. Não foi naquela hora e nem depois. Ele se levantou e disse: preciso ir. Deu-lhe um beijo e foi embora.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Deve ser alguma coisa

Você começou como um sussurro distante, de nem sei onde. Foi virando um galope e de repente se perdeu no horizonte tão imenso que é. É assim que é, assim assim assim. Porque quando eu penso em ir embora de tristeza eu tenho que me lembrar que a tristeza é minha mesmo (não veio de você e não vai embora se você se for) e às vezes você não me entende porque a gente tem muitas coisas diferentes. O que será que você vê quando me vê? Além disso aqui tudo que vai acabar como todos os velhinhos acabam: em sobras de pele. A pele até sobra no final da vida, tão inútil que é. A gente só fica com o que um dia foi amor. Esse sentimento antigo pra burro. Esse sentimento que deve ser alguma coisa porque se não fosse, seria pele.

As crianças

E então as duas crianças entram na sala de música. Tinha um ou outro instrumento que ela não conhecia e um monte de quadro. Tem um desses na minha casa, ela pensa. Uns cavalinhos. E ele pega a guitarra (ou violão?) e toca. Ele mesmo criou a música em inglês, porque no português ia ficar claro demais e em inglês soa mais bonito. E ela guarda a música naquela portinha secreta do cérebro, aquela que nem ela mesma consegue abrir.

Essa música

Essa música é o meu grito, o meu choro, o meu desespero. E você ouve essa flauta agora porque eu preciso desabafar, mas eu só sei mesmo é fazer música e é ela que me faz bem enquanto eu me recupero dessa dor. Trim trim tchururu essa música não é pra você porque você já foi embora então de nada serviria porque voltar eu sei que você não vai. Então a música pode ser pra mim mesmo ou então pro meu pai (e pra mamãe também, por que não?). Só pra você que não é porque em lugar nenhum já se viu uma gaita tão linda pra uma pessoa que deixa a outra tão triste assim.

a sua metade

Queria te dividir no meio e ficar com uma das partes, porque a outra vai sentir o que eu sinto todo o tempo, o que eu sinto sem a minha metade porque ela está aí.

domingo, 22 de setembro de 2013

Como se

Nós não somos desse mundo
e guardamos um segredo
- sobre o outro lado.
Todos os dias a gente acorda
e precisa disfarçar esse segredo,
como se ele não houvesse,
como se, quê segredo?
E de repente ele transborda um pouco
- e vaza.
Mas ninguém percebe,
e a gente continua.
Dia após dia a gente acorda
com um dia a menos que passou ontem,
com um dia a mais para disfarçar.
E assim a gente sobrevive
(com um segredo).
(DB)

Carta aberta

Quando você me ignora às vezes (cada vez menos vezes) eu não sei como reagir. Hoje eu acho que você escolheu me ignorar porque você perdeu a discussão e ficou com raiva. Eu te esperei enquanto lia um livro tão bonito. Mas eu te esperei demais e o livro ficou menos bonito. Te esperar nunca me fez bem. Eu ando um pouco insegura, sabia? Ando achando que você cansou de ouvir o que eu tenho a dizer. As suas reações parecem dizer isso. Será que eu fiquei repetitiva? Será que eu não tenho mais graça pra você? Eu sinto que aprendi tanta coisa interessante esses dias, sinto que estou mudando tanto ultimamente, quero contar tanta coisa pra alguém. Acho que você não quer muito saber. Eu quis escrever pra você, mas não mandei uma carta direto pra você porque eu acho que você não iria se interessar, por isso escrevo aqui. Eu sei que você vai ler e vai ter uma pontinha de dúvida se é de você que eu falo. É sim, é de você. De quem mais poderia ser? Queria tanto te contar mais daquele livro que mudou a minha forma de ver o mundo desde quando eu estava no colegial, mas eu acho que você iria querer discordar só porque é o que você gosta de fazer. E tudo bem, eu deixo você ganhar, eu não sou competitiva. Aliás eu tenho uma síndrome que me faz achar que eu já cheguei ao mundo perdendo.
E é só isso.
Boa noite, você que anda um pouco distante.

domingo, 8 de setembro de 2013

Apart

Enquanto a gente esteve separado teve um dia que o seu gosto veio na minha boca como uma ressaca de dia seguinte. Eu quis beijar a minha própria boca de tanta saudade que eu tava de você.

Passarinho

Um dia você me deu um passarinho. Um passarinho diferente, desses que vem na mão. Topetinho amarelo, coisa mais linda. Eu quase tive um troço. Imagina uma pessoa ir até um criador de passarinhos na zona norte da cidade escolher o passarinho mais bonzinho. Depois trazer numa gaiola para dar de aniversário para a namorada. Não posso com uma coisa dessas. Mas não foi fácil, não. Ele era super bravo, queria me matar o tempo todo. Bicava forte, achava que eu queria comê-lo. Sofri tanto. Todos os dias eu tentava pegá-lo, tentava cantar pra ele. E sofria com a rejeição que vinha em troca. Dias, semanas, meses passavam e nada dele gostar de mim. Até que ele começou a vir no meu dedo, começou a cantar um pouquinho, a coisa foi ficando legal. Ele parou de me bicar, parou de me detestar. Finalmente percebeu que eu não iria comê-lo. Começou a me tratar com carinho, cantar tudo que eu ensinava. Certa vez eu fui dormir e ele pousou no meu cabelo, o tempo todo ele ficou ali. Eu acordei e chorei um pouquinho: o meu passarinho me mostrou que eu posso ensinar alguém a amar. Com paciência, carinho, amor. Eu aprendi isso com um passarinho, o melhor presente que eu já ganhei na vida.

Você e Ele

Mamãe, não se preocupe. Você se preocupa demais. Você é a pessoa nessa Terra que mais tem Deus no peito. É como se Deus tivesse te escolhido. E no entanto fica com medo de quase tudo. Como pode? Não pode, não deve. Mamãe, mais do que ninguém você deveria saber que se qualquer coisa acontecer, você fala com Deus rapidinho e juntos vocês dão um jeitinho de ficar tudo bem. Foi assim a vida toda, por que haveria de mudar?

Antes de tudo

Antes de tudo, era tudo tão leve
que as coisas flutuavam pelos dias
não como dias, mas como nuvens.

O t do enquanto

Eu escrevo porque eu gosto demais de dormir, mas eu perco o sono de tanto que eu preciso escrever. Meus dedos seguram a caneta com força e meu cérebro grita "acorda" enquanto eu risco o t do enquanto.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Menos sete

São zero horas do dia seguinte,
não podia ser menos sete?

O nosso

O seu amor é delicado
parece nariz de criança
o seu amor parece um desenho feito de giz
no chão da sala
O seu amor me faz dar risada
quando eu acordo
O seu amor, tanto amor
tanto amor que me transborda
Você não sabe, mas eu sou tão feliz
por causa do nosso amor.]


Para o meu amor, Giu.

Já fui

Já fui escritora, poeta, ilusionista, gozadora.
Hoje eu aperto botões com louvor
- sou uma das melhores da turma.
E também sou o revés de um sonho,
um sonho amputado.
Um sonho pior que dor de nunca mais.
Eu já tive vontade de tentar
mas o medo venceu
e o botão me apertou.

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Ale(r)g(r)ia

Sendo assim, a alegria uma espécie de alergia
- que vem, dá coceira e vai embora -
É melhor comer de tudo, passar todos os cremes,
cheirar todos os cheiros, pular em todas as piscinas
melhor é fazer de tudo
até que essa alergia volte a dar coceira.

Gosto

Toda pele receberá lábios úmidos 
e todos os lábios sentirão com a língua o gosto da pele
e cada pele terá um gosto
porque Deus não fez um gosto igual ao outro



terça-feira, 9 de julho de 2013

O Mito de Sísifo


Todos os dias ele lembra ela sobre o mito de Sísifo. Ela acorda desanimada, toma o café da manhã e vai triste levar a pedra ao topo, sem entender o paralelo do mito com a vida. Quantas subidas me restam? E quanto mais ela se questiona, mais subidas restarão.

O menino morto

Voltei a pensar no menino morto. Ele morava tão longe que eu não consigo imaginar uma versão mais atualizada dele, do jeito que ele estava quando morreu. Penso só naquele menino que foi embora aos 14 anos. E foi ele que morreu pra mim. Loirinho, rosto de menino doce, narigudo. Ele não era tão doce assim, era até bastante atrevido, mas por ser tímido ficava um pouquinho doce. Eu passava o dia atrás dele: quando não estava na frente da casa dele, ficava na janela atenta ao som do carro dele - quando passasse o carro, era hora de ir pra frente da casa dele. Quando finalmente depois de muitos meses (talvez até um ou dois anos) nos beijamos, fiquei tão nervosa que abri os olhos para ver se era ele mesmo. Fiquei atenta ao cheiro, a pele, ao gosto. Coração saltando pela boca. O perfume - depois fui descobrir - era um de frasco azul escuro com o símbolo do cavalinho, o gosto dele era daquele chiclete popular de menta, e a pele... própria de um garoto de 14 anos: pêssego com espinhas. Esses dias dei de cara com aquele frasco azul no banheiro do meu pai. Acho que foi uma das coisas mais tristes em muito tempo: o cheiro dele não me trouxe nada à memória. Eu o vi em um sonho um pouco depois que soube da morte. Quis chorar, quis abraçá-lo, quis lidar com as minhas próprias mortes no ombro dele, mas não pude: ele era só um menino, aquilo era só um sonho e o cheiro dele eu nunca mais soube.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Tum-tum

Ainda bem que você
 - com tantos conselhos, com tantas palavras alheias - 
resolveu ouvir o meu peito. 

De repente, do pranto fez-se o riso





quinta-feira, 27 de junho de 2013

A caixa

O porta-retratos, o livro, os colares, a pulseira, o anel. As músicas. Uma saia de couve-flor. O endereço de um site. Cartas. Uma passagem de avião. Mais cartas, mais músicas, mais fotos. Coisas, coisas, tantas coisas. Foi tudo para a caixa. Aquele cheiro de tanta coisa dentro da caixa, não dava para ela ficar na casa sem tudo aquilo. Ela levou a caixa pra fora, era grande o suficiente para caber ela lá dentro. Entrou. Daqui de dentro eu não saio.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Qual é o objetivo afinal?

A gente brincava de Barbie todos os dias - duas horas para montar a casa e outras três brincando, todo dia. Até que um dia, quando tínhamos quinze anos as duas, ela me ligou: "onde vamos montar a casa hoje?" "Não sei, eu estive pensando, sabe? Acho que não quero mais brincar." "Como assim? Por que não?" "Porque hoje eu me dei conta de uma coisa... Qual é o objetivo dessa brincadeira afinal? Não tem um objetivo..." Ela ficou uns minutos muda do outro lado da linha e suspirou: "É... acho que você tem razão" e desligou o telefone. Alguns dias depois a vontade de brincar voltou e eu liguei pra ela, mas ela não quis mais. Ela nunca mais quis mais. Eu coloquei aquela dúvida na cabeça dela e foi por causa daquela dúvida que a gente nunca mais brincou. Bobagem nossa, mas a gente jamais poderia imaginar que nada nessa vida tem um objetivo muito claro.

segunda-feira, 24 de junho de 2013

A sua mão

Nadei, corri, dancei, chorei, cai tanto pra chegar aqui e tudo que você tem pra me dar é a sua mão? Eu aceito.

Seja qual for

Adeus, obrigada, desculpe.
Estou indo, indo, indo...
Não vou parar de ir nunca.
Eu tenho alergia a ficar aqui
(seja lá qual for o aqui).
Adeus, me dá o último beijo
- porque o último beijo tem
o mesmo gosto do primeiro.

Como é possível que a espera seja tão longa, o caminho seja tão doloroso e as flores no caminho murchem tão rapidamente?

Casa

Enquanto acertava o relógio velho da sala,
e arrumava as cadeiras e organizava os livros na estante
e tirava o pó da escrivaninha e varria o chão,
ela se deu conta - com muita dor no peito -
de que aquela não era mais a sua casa.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Reza

Todos os dias eu choro um pouquinho antes de dormir, e essa é a minha reza ao avesso.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Escova de dentes

A sua escova de dentes na minha cabeceira me dói mais do que o silêncio do meu celular. A escova grita, esperneia, implora para que você venha buscá-la. Por causa dela eu vejo os seus dentes a espera da escova, a sua boca, o seu abraço, o nosso amor. Não adianta guardá-la, os gritos atravessam a gaveta, atravessam os meus sonhos, o meu dia. De todas as coisas que eu tinha, ela é absolutamente tudo que me restou.

sábado, 15 de junho de 2013

Um beijo na boca


Essa tela tem sido muito divulgada na internet. Quem gosta de arte com certeza já viu. Acho que a divulgação toda é porque a beleza aqui é muito clara: os dois rostos estão tão ligados que se anulam. Muito amor, muita ligação, são um só. Simples como deve ser. Jarek Puczel é um artista polonês e as obras dele são todas assim mesmo: minimalistas, românticas e sutis. Pelo menos é a minha impressão. As narrativas são simples, o acesso é fácil. Doce, doce... Tenho saudade dessas obras, acho que desde que nasci. 

Eu não sei falar alemão

Ele nem me conhecia e já quis me analisar. Acho que as pessoas tem uma certa mania de fazer isso: já ir me analisando. Acho um pouco irritante. Ele disse, em alemão, que estava escrito na minha testa que eu era uma pessoa que não gostava de se arriscar. Que eu era defensiva. E ainda teve a audácia de traduzir tudo. Eu quis matá-lo a facadas, mas me contive. O que é que você tem a ver com meus medos? E se eu não quiser superá-los? Ich mag es nicht meine Ängste aussetzen. 

Aquela viagem

Uma vez a gente viajou de carro para uma cidade vizinha. Minha mãe achou a coisa mais romântica do mundo. A gente perdeu o voo e eu quase desisti da viagem, mas ele sugeriu o carrinho vermelho. Eu estava indecisa com relação a quase tudo. Quase tudo estava me reprimindo. Mas eu fui, a viagem era longa e podia ser bom pra nós dois. Eu adoro ficar no carro olhando a janela, a paisagem indo embora. Eu adoro que nessas viagens o silêncio é permitido. Eu fui ficando mais calma, a viagem foi mais demorada do que o previsto. A gente ria, nos sentíamos aventureiros naquele carrinho. A polícia nos parou, foi o máximo. Quando chegamos lá, eu já nem lembrava da minha indecisão. Ele foi engraçado, se esforçou pra caramba sem nem precisar se esforçar. Eu lembro da risada maliciosa dele na volta da festa. E choveu no dia seguinte, ficamos presos um ao outro. A volta foi de avião. Rápida, rápida demais. Senti falta do carrinho vermelho. Sem que ele visse eu chorei um pouquinho. Aquela viagem pareceu um sonho bom. 

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Hamlet


Shakespeare disse, naquele livro Hamlet, que diante de tanta dor que os homens sentem eles só não se matam porque têm medo do que os espera do outro lado da vida. Ninguém foi até a morte e voltou vivo pra contar o que viu. E é justamente essa dúvida que nos mantém vivos. É uma covardia, mas é por causa dela que ainda estamos aqui. Tem dias que o medo quase some, a coragem parece gritar.  

domingo, 9 de junho de 2013

Balada

Uma mulher triste com uma cerveja na mão. Ela ri, conversa com quem conversa com ela, se bobear até dança um pouquinho, mas é infinitamente triste. Quem ali naquele mundo escuro cheio de mini saias vai perceber tanta tristeza?

terça-feira, 4 de junho de 2013

cativeiro

Um dia meus netinhos virão me perguntar,
não vou conseguir mentir, também não vou negar:
eu estava num cativeiro e você veio me buscar.

choro de pai

eu só me lembro de tê-lo visto chorar numa sexta-feira treze quando choveu muito e ele cortou o supercílio batendo em algum lugar e sangrou e ele chorou chorou chorou quase até o sangue virar casquinha essa foi a única vez que eu o vi chorar.

um igual

O que dizer dessa dor, tão pouco sentida pelo resto da humanidade? Que sou privilegiada? Se o privilégio da poesia é sentir essa dor, que acabe toda a poesia porque não quero mais doer. Meu peito me enche, meu peito que bate, talvez mais do que os outros. Esse peito eu lhe dou de presente, fique à vontade para jogá-lo no mar. Eu não quero mais. Só quero perder essa minha visão de ver tudo por de  dentro. Aqui fora é vazio demais, como faço para achar um igual? Preciso dividir a vida, porque a morte não me vem e eu ainda não achei.

Paulo Leminski

Transar bem todas as ondas
a Papai do céu pertence,
 fazer as luas redondas
ou me nascer paranaense
A nós, gente, foi só dada
essa maldita capacidade,
transformar amor em nada. 

Suicídio

vinte segundos faltam
para eu fazer falta
por aqui


Villa Oscarlina

Não foram só os quadros encantadores. Eu tive vontade de ficar ali alguns dias, olhando os detalhes como aquela faca que foi reposicionada e deixou um rastro na mesa, ou aquele pintor que me lembrou o Turner. Mas não foram só os quadros. Eu descobri uma versão de where is my mind que me fez suspirar. Eu provei o melhor bolo de chocolate do mundo e a birdy também foi uma graça. O Olavo Bilac conheço pouco, mas eu sei da sua importância. Ele estava na estante com todas as outras preciosidades. A música de dez anos atrás, eu queria ouvir mais uma vez - só mais uma - pra poder gravar escondido. E depois ouvir mais mil - ao longo do resto da vida. Eu tinha saído de um lugar hostil "não confunda experimentar a vida com se colocar em perigo" e cheguei no universo paralelo que eu tanto falo. Foi isso tudo junto. Guardei um pouco da Villa Oscarlina no peito para quando eu não quiser mais fazer parte desse mundo eu lembrar dela.

domingo, 2 de junho de 2013

O grito

Eu vou saindo sem dizer nada e o seu silêncio gentilmente abre a porta para mim. E quando eu já estou lá fora esperando um trem passar eu ouço qualquer coisa que parece ser um grito seu. Mas eu já estou longe, longe demais quando percebo que é mesmo seu o grito. Eu nem sabia que você podia gritar.

where is my mind

Your head will collapse if there's nothing in it

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Flerte

Um segundo após o outro
eu sofro com a vida.
Num segundo e não no outro
eu seguro o choro,
prendo a respiração.
A vida muda, a dor passa,
a respiração ainda presa.
Depois, com a pressa,
tudo volta num segundo,
e no outro eu sinto muito.
A vida, sendo tão pouca,
sobra em mim e nada me resta.
Eu transbordo a vida,
às vezes pelos olhos.
Eu espio a morte,
ela me espia de volta.
O flerte é grande,
mas eu não morro.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

G. Benção

Na verdade me dói mais um tanto, mesmo que com certa dose de alívio, a sua presença na minha vida quase adaptada. Quando o meu olhar já estava quase destreinado, você pediu gentilmente que eu acordasse. Ao som de um homem que conseguiu transcender a música, na verdade eu não sei bem se acordei ou se renasci.

terça-feira, 21 de maio de 2013

I think it's sad the way I see the world.

É?

Acabou a tinta, a bateria, a dor.
Acabou a música, a luz, a água.
O sabor, o tempero, o lugar.
Acabou o dia e o minuto que passou.
Ainda tem um pouco de mar.
Um pouco de vento, um pouco de algo.
Algo que eu não sei nem o que é,
eu não enxergo bem à noite.
Ainda tem a noite.
Ainda tem o dia seguinte.
Ainda tem muita coisa - mesmo que tudo tenha acabado.
Tudo não é tanto assim, é?

domingo, 19 de maio de 2013

Estrada

Eu descobri tanta música nova pra gente ouvir nas nossas viagens de carro. E se você ficar com sono, eu não vou me importar em escutá-las sozinha enquanto dirijo. Eu fico pensando na vida enquanto vejo a estrada se curvar e fico pensando na gente e fico pensando se eu deveria ser assim tão triste quando eu fico triste. Mas se de repente eu me enfiar em um acidente e nós dois morrermos eu nunca vou descobrir se a minha tristeza é mesmo comum. Por isso eu preciso tentar sem você. Eu preciso ver do que é feita a minha tristeza. Me perdoe, eu não quero morrer sem saber. Me perdoe por ser triste, por ser assim triste, por ser assim.

e-mail antigo

O Munch (se fala munk) era um artista norueguês (1863 - 1944) , que teve uma vida MUITO turbulenta. A mãe dele morreu aos 5 anos, uma das irmãs morreu aos 14, o pai mergulhou numa onda de religiosismo meio fanático-doidão e ele (o Munch) era um cara sozinho.

Foi ele que fez o famosíssimo O Grito. 

Esse quadro aqui me chamou a atenção... Chama Separação. 

Tudo que ele pintava mostrava desespero, solidão, tristeza... É triste de ver. 

Nesse quadro a mulher, meio fantasmagórica, meio sonâmbula, vai embora e o homem, desolado, segura o coração na mão. É tudo meio sombrio... É como ele enxergou uma das separações da vida dele. A mulher parte e logo vira um fantasma, e ele fica ali, sem saber o que fazer com o coração sangrando... 

Vê o que vc acha.

Vestido verde

Fazia muito frio quando eu ganhei aquele vestido dele. Foi um esforço vesti-lo escondido para fazer surpresa quando ele voltasse da cozinha. Fiquei até com um pouco de vergonha quando ele voltou e eu estava toda arrepiada dançando com o vestido. Mas ele riu, sei que gostou.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Aspen

Eu me lembro quando você foi viajar pela primeira vez. Meu coração doía tanto. Eu quis me vingar saindo de casa, indo à padaria, à locadora, à uma esquina sem nada. Eu riscava os dias no calendário: faltam quinze, dezesseis, dezoito dias (porque parecia que os dias só ficavam mais distantes da sua volta). Eu me arrastava pela vida - foram vinte e poucos dias de angústia. Eu sei que eu exagerei, devo ter errado feio nesse exagero, mas a verdade é que eu tinha asma, porque era do seu peito que eu queria respirar.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Se um dia eu me casar

Se um dia eu me casar vai ser por tanto amor, mas tanto amor, mas tanto amor, que não vai caber mais nada, acho que nem festa de casamento vai ter - vai ser tanta alegria, tanto prazer tanto só-eu-e-ele que nada mais vai precisar. Se um dia eu me casar, vai ser o dia mais lindo que o mundo já viu passar.

Lado errado

Foi o vento que levou tudo de mim. Eu tenho certeza que foi. Minha mãe não mudou nada de lugar dessa vez, eu não mexi, ninguém mais passou por aqui (e se passou, não levou nada). Foi o vento sim, eu vejo as folhas balançando pro lado errado. Se foi culpa da natureza, então eu já posso culpar alguém. E eu me despeço, despedaço, desconheço. Adeus.
Outro dia minha vida me perguntou o que eu queria.




(Eu sabia o que responder, mas fiquei em silêncio.)

Vinte e seis

Vinte e seis dias
vinte e seis planos
vinte e seis lágrimas
vinte e seis garotos
vinte e seis gargalhadas
vinte e seis desesperos
vinte e seis cadarços
vinte e seis insetos voando
vinte e seis iogurtes de morango
vinte e seis peças de teatro
vinte e seis conversas profundas
vinte e seis minutos desperdiçados
vinte e seis e eu não quero mais
não quero mais perder tempo
eu não quero mais perder os meus (únicos)
vinte e seis anos

terça-feira, 7 de maio de 2013

Fins

Eu percebi que eu já não sou mais a mesma quando escrevi um texto lindo sobre alguém, mas fiquei com preguiça de terminá-lo e escrevi qualquer coisa no fim. Quando li aquele fim eu me dei conta: estou me deixando pra trás. Eu não me importo mais com os fins.

terça-feira, 23 de abril de 2013

O que vai ser

O que vai ser de mim se eu abandonar tudo?
Ou pior: o que vai ser de mim se eu não abandonar nada?


Os seus silêncios ainda me incomodam




Pessoas

Eu vejo e ouço pessoas felizes por todos os lados.
Não sei se elas são felizes de fato,
mas eu as vejo,
e as ouço.
Não sei se são felizes de fato,
mas não importa porque eu as invejo até a última gota.
Invejo o amor que elas sentem e que outros sentem por elas,
invejo a leveza delas ao caminhar,
invejo a falta de culpa no peito,
o peito cheio.
Eu invejo os sonhos que elas conseguiram realizar.
Eu sonho em ser igual a elas.
Mas eu não sou,
eu não sou.


quinta-feira, 18 de abril de 2013

sinal sinal sinal sinal sina

Você acha que a vida é um sinal que eu sou um sinal que a música é um sinal que você é um sinal que nossas conversas são um sinal que a poesia é um sinal que a artista é um sinal que o sinal é um sinal e que esses sinais são a maior prova de que a vida é mágica. Também acho.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Por que, Prata?

Chorei agora com um texto besta, mais um, do Antonio Prata sobre a esposa que está grávida. Chorei porque eu continuo achando que ninguém vai escrever um texto bonito pra mim daquele jeito, muito menos quando eu estiver grávida. Chorei porque a gente vê que o Antonio Prata tem uma admiração pela mulher que é digna de um altar, chorei porque essa admiração é um sonho pra mim. Eu já tenho o sonho totalmente frustrado de ser ter pessoas que admirassem o meu trabalho, então que pelo menos eu tivesse um homem que admirasse a minha pessoa e só. Mas admirasse como o Antonio Prata admira a mulher, como meu pai admira a minha mãe, como um homem deve admirar a sua mulher. Eu sonho com isso, e sinto que nunca vou ter. Se não fosse o Prata pra me lembrar disso hoje, seria mais um dia que passaria batido, sem que eu me lembrasse que há homens que admiram as suas mulheres.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Eu deixei você partir

Eu sonhei que você vinha, destino, fantasiado de um dia comum. Eu nem te notava, eu te esnobava, eu seguia reto. Ao longo do dia fui percebendo que você não era um dia comum, não era só mais um. Fui descobrindo e me animando, querendo te entender, te conhecer, te viver em cada instante. Mas a noite chegou logo e você foi embora, destino, porque eu demorei demais para aproveitar a sua chegada. Você estava magoado comigo e foi embora, destino, com lágrimas nos olhos, prometendo nunca mais voltar. Engraçado que eu acordei e tive a sensação de que não era um sonho.

o seu

Eu posso até fingir que não me interessa
como já venho fazendo a um tempo
- tanto tempo
mas um dia você vai ter que me contar
tudo, tudo, tudo
que te preenche
que enche os seus olhos de chuva
um dia eu vou me cansar de não saber de nada
eu vou me cansar de não ouvir o seu coração
por mais bobo que ele seja
ele bate por algumas coisas
e por outras não
- quero saber de todas elas
mas é só você que pode me dizer
eu não vou adivinhar
eu não tenho bola de cristal
e nem quero ter.

terça-feira, 26 de março de 2013

Marina e Ulay

Ele sentou na cadeira. Ela olhou, olhou, e na verdade não demorou muito para que seus olhos lacrimejassem. Ela não deveria, mas esticou as mãos, precisava tocar nele, mesmo que fosse uma pequena transgressão. Foram muitos aplausos, mas ela não os escutou. Ele também não. Ela olhou para ele com mais atenção do que para qualquer uma das seis mil pessoas que sentaram naquela cadeira nos últimos tempos. Reparou em absolutamente todos os detalhes da sua face. Como envelheceu, ela pensou, mas como está bonito. Ela lembrou das discussões filosóficas que tiveram dentro daquele furgão velho, lembrou da quantidade de vezes que fizeram amor, do quanto ele a implorou para que parasse um pouco de fazer arte para que pudessem viver juntos no Nepal. Ela sempre recusava. Eu sou artista, está no meu sangue, dizia. Ela lembrou do quanto ele a fazia criar obras mais profundas do que normalmente, mas que um dia tudo ruiu. Essa questão do espaço, que eles já não tinham mais. Era difícil conviver tanto tempo em tão pouco espaço. As discussões viraram brigas e ele resolveu partir. Foi consensual, ela também topou. A coisa estava desgastante demais, não dava mesmo. Então eles se despediram como dois adolescentes e nunca mais se viram, até aquele dia. Fazia 12, 13, talvez 14 anos. Ele estava agora a alguns palmos de distância dela. E ela precisou mesmo transgredir a obra e pegar nas mãos dele. As mãos frias do homem que mais amou. Então ela soltou as mãos dele e enxugou as lágrimas. Ele ficou ali, paralisado alguns segundos, esperando alguma coisa. Nada. Foi só um encontro. E foi embora.

Aniversário de Barueri

Você um dia me agradeceu por ter feito sua vida ser um pouquinho melhor, ou algo assim. É com um pouquinho de dor (da saudade que já sinto) que eu digo que quem deve agradecer sou eu, porque é você que me faz lembrar de tempos em tempos do que eu sou feita e que a vida não precisa ser assim. Quando eu te encontro eu fico com vontade que tudo volte a ser mágico, porque os nossos encontros sempre são, mesmo que o melhor bolo de chocolate do mundo não seja o melhor que eu já comi. Eu é que devo agradecer, porque é você que me fez dormir tarde hoje para escrever. Porque eu amo escrever, e a vida não precisa ser assim. "Você pode dormir menos", você disse. Eis eu aqui.

sábado, 23 de março de 2013

lá fora

Tem todo um mundo lá fora, um mundo fascinante de pessoas como eu - que não pertencem aqui. Eu dei uma espiada nesse mundo algumas vezes e sempre que volto de lá me volta a dor de existir. Eu de repente me lembro o motivo pelo qual as vezes me dói tanto - porque eu não sou daqui, porque aqui as pessoas não sabem do que eu estou falando, porque esse mundo daqui é muito pequeno e restrito, aqui eu tenho que respirar conforme o ar - e então volta a doer. Como dói, Deus, como dói. A última vez que eu vi esse mundo, eu era uma estranha, eu não conhecia ninguém naquele universo que era para ser meu também. Eu preciso chegar lá e ficar. Eu me apresento aos poucos, as pessoas me cumprimentam de longe e pouco a pouco vão me abraçando. Eu preciso ir pra lá, esse mundo não tem graça pra mim, nunca vai ter - eu não sou daqui. Estou perdendo tempo da minha vida aqui, tempo precioso, um tempo que não tem volta. Não quero chegar lá quando eu for velha e os meus olhos estiverem acostumados a não chorar mais. Eu, que sou feita de lágrimas.